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André Macedo 18 de Março de 2018 às 20:35

Como hoje não tinha assunto....

Se o jornalismo é o primeiro rascunho da história, então andamos muito mal servidos de rascunhos. Porque o que genericamente temos hoje não é sequer um instantâneo bem conseguido da realidade, mas, sim, uma produção fotográfica, como as que se fazem nas revistas de moda - uma ficção para vender uma mensagem.

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Portugal sofre de monocultura intensiva. No desporto, só há futebol. Entre as árvores, impõe-se o eucalipto. Na política, a geringonça e os episódios como o de Feliciano Barreiras Duarte, um homem incrível e cheio de referências académicas, polvilham a atualidade e alimentam com fúria e furor as redes sociais - as portas de casa de banho da democracia, onde cada um grafita grosseiramente o que lhe apetece. E depois vem o jornalismo, que todos os dias faz a sua faina sobre esta pobreza de assuntos e aplica o mesmo selo inconsequente a quase tudo: polémica. Na realidade, pescamos apenas o que está mais à mão.

 

 Contou-me um velho amigo jornalista que em tempos polémica foi palavra proibida nos títulos do "Expresso", porque quase tudo desaguava nesse qualificativo e assim parecia tudo igual. Ora, um dos trabalhos do jornalismo é descobrir e assinalar a diferença. Porque apenas assim conseguimos ter uma dimensão mais aproximada do real. E também porque só assim se torna possível conhecer a verdadeira escala (dimensão) dos acontecimentos, sejam eles problemas ou soluções, derrotas ou triunfos.

 

Quando a revista "Volta ao Mundo" escolhia uma paisagem para fazer a capa, tinha sempre o cuidado de deixar lá um elemento humano mensurável, para assim nos transmitir melhor a grandeza do cenário. Podia ser uma pessoa ou uma casa. Sem esse ou esses detalhes perdia-se a escala e o instantâneo carecia de alcance informativo. Já não era - não seria - jornalismo, mas outra forma de comunicação. O Cristo-Rei e o Cristo-Redentor podem ser parecidos, mas são na verdade muito diferentes.

 

Hoje, mudam os protagonistas das notícias, mas a história que contamos é quase sempre a mesma e daí o aborrecimento e a confusão que tudo isso provoca nas pessoas. O futebol não tem culpa, nem o eucalipto, nem a geringonça, uma solução política com virtudes e defeitos. O problema é a ausência do resto, a falta de profundidade com que, em regra, são tratados e acompanhados os acontecimentos que não entram no relvado ou não são convocados para arena partidária e, portanto, não entram na agenda de todos os dias.

 

Por exemplo, esta semana que passou morreu o físico Stephan Hawking. Nesse dia, fizeram-se algumas notícias, ouviram-se físicos e cientistas, mas depois o assunto desapareceu misteriosamente num buraco negro, morto e enterrado, para nunca mais se ouvir falar dele, exceto nas graçolas espalhadas pela web. A explicação para este empobrecimento é evidente: não há jornalismo científico em Portugal. Fazem-se e publicam-se umas peças, mas contam-se com os dedos de uma mão o número de repórteres capazes de contar a história de Hawking e a importância que ele teve na divulgação científica. Entre o destaque dado esta semana ao doutor Barreiras Duarte e aquele concedido ao divulgador Stephan Hawking estão várias galáxias de distância. Ora, isso também nos define como país: o que somos e o que talvez queiramos ser.

 

Cito mais uns exemplos. Sempre me espantou o destaque informativo diário dado às miseráveis oscilações do PSI-20 - uma vez por todas convém perceber que já não há capitalismo popular em Portugal -, como me surpreendem as notícias regulares sobre venda de dívida pública portuguesa ou outros destaques informativos do mesmo calibre (ruído e mais ruído) que, em regra e isoladamente, nos dizem muito pouco sobre como estamos ou vamos estar. O problema é que para produzir esta informação usamos tempo e recurso, ambos por definição finitos, e assim o dia passa sem que nada de novo seja contado e explicado.

 

Se o jornalismo é o primeiro rascunho da história, então andamos muito mal servidos de rascunhos. Porque o que genericamente temos hoje não é sequer um instantâneo bem conseguido da realidade, mas, sim, uma produção fotográfica, como as que se fazem nas revistas de moda - uma ficção para vender uma mensagem.

Este artigo está em conformidade com o novo acordo ortográfico

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