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André Macedo 01 de Julho de 2018 às 18:30

Mudar de pele

Um bom jornal sabe que pode ser fuzilado e avança pela força das ideias que transporta. Morre e renasce por elas.

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Há coisas do diabo. O meu último dia como jornalista, foi o primeiro do "Diário de Notícias", o novo semanário nacional. Uma nova pele para os dois, embora a substância não mude para ambos. 


Fazer perguntas, dar respostas, contar histórias, procurar estabelecer uma ligação ao público, leitor, ouvinte e espectador. Conversar com ele, fazer a ponte que liga e corporiza a nossa comunidade, expor e revelar, mas também escolher os assuntos que nos ajudam a dizer (resumir, contrariar, detestar, duvidar) quem somos, o que desejamos para nós e para os outros, o que estamos ou não dispostos a arriscar por essa coisa maior do que a nossa vaidade pessoal e profissional. Começa ou pode começar na vaidade, até que a humana mediocridade cede a essa força infinitamente maior. Mais poderosa. Mais generosa. O nosso grau de compromisso.

Um jornal é isso: um compromisso que nos eleva, ultrapassa sem misericórdia e, no fim, nos transcende. É uma expressão de liberdade - ou então não é nada disso e só serve para corporizar o mal e o que está errado. Não é uma resma de folhas diárias. Não se define pelo meio e periodicidade, embora isso facilite alguma coisa. Carateriza-se pelo alcance da informação recolhida e, havendo talento e esforço, muito talento e muito esforço, pela informação bem tratada. Isto sim, aquilo não, não agora, aquilo jamais. Ou seja, pela inteligência, ousadia e capacidade de risco. O impulso para quase tudo pôr em causa e, assim, apenas assim, defender o essencial. Dêem-me um grande "Diário de Notícias" mensal, cheio de ideias e de pensamento disponível - do fim da rua ao fim do mundo, nessa magnífica frase âncora da TSF -, e ele mexerá comigo todos os dias, diariamente, sem que eu sequer me aperceba de onde soprou esse impulso criador. As ideias formam correntes invisíveis que de quando em quando frutificam numa ação ou numa oposição. A isso se chama jornalismo.

Eu não gosto de escrever, mas de ter escrito, uma frase que li num sítio qualquer e que resume a dificuldade deste trabalho artesanal. Não é conteúdo - essa palavra é boa para definir o interior de um rolo de carne. Não sou e nunca fui chef de cozinha, fui editor, trabalhei sobre as ideias dos outros à procura de alguma coisa de único. Desconheço o que é conteúdo, repudio quem queira transformar a informação numa estúpida linha de montagem em linha reta. Num mundo redondo e cheio de curvas, de altos e de baixos, pleno de relevos e de espessura, a informação resulta da meticulosa carpintaria das palavras e das imagens que se juntam para contar uma ideia que se mantém de pé uns dias, semanas ou até anos.

O prazo de validade: li no Diário de Notícias... é uma afirmação intemporal que nos dá permanência e oferece oportunidade. Haverá melhor coisa do que ter a oportunidade? Um bom jornal tem lá dentro - deveria ter numa linha qualquer, rogo-vos para que tenha - essa promessa que nos impele a mexer e a reagir. Essa galhardia contra o banal e o injusto e o que está errado e que tem de mudar, seja em que escala for. Um jornal não é uma rede social. Um jornal é um animal social, liberta-nos da rede que nos prende, constrange, policia e impede de termos voz própria e singular. Não é um coro, não é uma turba de linchamento, não é um manual de regras, é também um ato de subversão.

Um bom jornal sabe que pode ser fuzilado e avança pela força das ideias que transporta. Morre e renasce por elas. Não por vaidade, já o disse, a vaidade entorpece - matem os vossos bebés é a melhor sugestão que se pode dar a quem escreve: se soa demasiado bonitinho e acrobático, apaguem, não somos trapezistas, escreveu o grande editor Terry McDonell. Não por vaidade, dizia eu, mas talvez por sabermos que há outra edição logo a seguir. E depois fica a maldita pergunta: será que fiz o que devia ou fui longe demais?

P.S. Um agradecimento especial ao André Veríssimo, diretor deste importante jornal - 'keep on rockin' - e ao Raul Vaz, que me convocou a escrever aqui, e também à Cofina, onde comecei e cresci. A última palavra, a mais importante, e o derradeiro agradecimento (sem ponto final) fica para os leitores. O leitor.

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico
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