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António José Teixeira 07 de Abril de 2017 às 13:00

Folha de assentos

Não saímos do balcão da banca, sempre convidados a contribuir. Resoluções sem fundo sempre à espera de redenção. Ávidos de capital, vendemo-nos à China enquanto arquivamos prejuízos. Valha-nos a ciência num país de caneladas.

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resolução. De Fundo de Resolução. O tal experimento que os senhores das finanças europeias aconselharam Portugal a seguir quando o BES ameaçava ruir. Um fundo composto com dinheiro dos restantes bancos, mas emprestado pelo Estado. Assim nasceu o Novo Banco, um banco de transição destinado a ser vendido rapidamente. Seria um banco depurado de crédito malparado, cuja venda indemnizaria o Fundo de Resolução. Seria. Não é. Agora que um fundo americano se predispôs a ficar com o Novo Banco, percebemos que ainda poderemos ter de pagar por isso. Será a menos má das soluções, dizem. Muitos bancos tornaram-se um pesadelo para os contribuintes. Os milhares de milhões que se volatizam num ápice passam por uma inevitabilidade. No caso do BES, a resolução seria o travão, o remédio. Resolução seria pressupostamente o meio pelo qual se decide um caso duvidoso. Ora, o caso continua duvidoso. Depende de várias variáveis. Resolução seria capacidade de decidir, de demonstrar engenho para resolver problemas. Seria também nitidez. Quase tudo o que falta. Resolução, precisa-se.

arquivado. Até prova em contrário, todos somos inocentes. Talvez uns mais do que outros, como diria Orwell. E se alguém se tornar suspeito de um qualquer crime, for investigado e o seu caso for arquivado por insuficiência de provas, não deixa de ter direito ao bom nome. É o caso de Dias Loureiro e de Oliveira e Costa, indiciados pelos crimes de burla qualificada, branqueamento e fraude fiscal qualificada, no âmbito do processo BPN. Um banco de má memória. No registo do arquivamento ficam negócios que "implicaram a concessão de financiamentos por bancos do Grupo BPN a entidades instrumentais, que não foram pagos, com consequente prejuízo para o Grupo". Prejuízos arquivados.

ciência. Há que dizê-lo com orgulho: Portugal é dos países que mais crescem em produção científica na Europa. O número de publicações científicas triplicou na última década. Entre os 27 estamos em 11.º lugar. Subimos cinco posições em 10 anos. Estamos entre os quatro países que mais progrediram. Olhando para o "ranking", situamo-nos entre a Alemanha e o Reino Unido, acima da Espanha, de França e de Itália. Significa isto que a aposta na ciência, que Mariano Gago pôs em marcha, produz os seus frutos, mesmo com percalços no caminho. Significa que é por aqui que o desenvolvimento do país passa. Significa isto que temos o dever e a responsabilidade de aproveitar melhor o conhecimento na produção de riqueza. Ciência não é só instrumento económico. Mas também o é. Ou deve ser. O movimento científico está aí. Precisa de ser amparado e continuado. E isso só é possível com convicção política.

china. A Fundação Oriente lembrou-se de que passaram 30 anos sobre a Declaração Conjunta Luso-Chinesa, que traçou o futuro de Macau. Há 18, tornou-se Região Administrativa Especial no seio do Império do Meio. De então para cá, Macau perdeu relevo na agenda portuguesa ao mesmo tempo que Portugal ganhava relevo na agenda chinesa. A desproporção entre os dois países não poderia ser maior. Basta dizer que a população do nosso país é mais pequena do que a de Pequim. Ainda assim, Portugal é o país da UE onde o investimento chinês tem mais peso no produto interno bruto. Um interesse diversificado, da banca à energia, das comunicações à saúde. Negócios compensadores, que se aproveitam da debilidade estrutural da nossa economia. Mas que visam mais longe em posicionamento estratégico, acesso a tecnologia e influência internacional. Passo a passo, o império torna-se potência mundial. Ávido de capital, Portugal vende-se. Barato. Além disto, que queremos da China? Sabemos?

canelas. Nome de clube de futebol, exemplo de violência assumida e permitida. Não foi suficiente a recusa de boa parte dos seus adversários em jogar com o Canelas 2010. Uma dezena de equipas fez saber que não pactuava com a violência inaudita dos seus jogadores. Não me lembro de algo assim. Já lá vai, mas nem por isso os dirigentes do futebol decidiram tomar medidas adequadas. Trata-se da Divisão de Elite Pró-Nacional da Associação de Futebol do Porto e a palavra elite conjugada com Canelas não pode deixar de impressionar. Cruzam-se aqui alguns dos piores exemplos de condicionamento das competições desportivas. Esta semana, a vítima foi um árbitro agredido violentamente por um jogador/segurança/claquista. Alguém saberá porque se toleram estes comportamentos reiterados numa dita divisão de elite? Estes exemplares lembram-me alguns cultores das praxes académicas: pura violência fascista dissimulada em trajes desportivos ou académicos.

bonecos. Paula Rego chegou ao cinema pelo olhar do seu filho mais novo. Está aí um documentário precioso para conhecer melhor uma das pintoras contemporâneas mais singulares. "Paula Rego: Histórias & Segredos", de Nick Willing, conta o percurso da mãe e da pintora, os fantasmas e as depressões de uma mulher que se revelou sempre nos seus quadros e nos seus bonecos. Foi em Londres que conseguiu pôr na tela toda a escuridão que se atravessou no seu caminho. Histórias cruéis, portuguesas, de um tempo mesquinho, só possíveis de contar à distância. O documentário ajuda-nos a entender esta mulher frontal, desconcertante, e a penetrar no seu universo de bonecos e assombrações.


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