António Moita
António Moita 20 de outubro de 2019 às 18:30

Com a verdade me enganas

Mais uma vez chegou onde queria. Governar com as suas políticas e com a sua gente, amarrando como podia os outros a soluções e a desígnios com que não concordam.

No discurso de vitória da noite eleitoral, António Costa afirmou, com o ar jovial de sempre, que o povo disse claramente que estava contente com a "geringonça". Assim sendo, não havia outro caminho senão o de manter a solução na próxima legislatura. Mas, com a mesma cara, terminou a intervenção dizendo que assim seria desde que fossem respeitadas as "linhas vermelhas", isto é, os compromissos com Bruxelas, o controlo do défice e a redução da dívida pública. Em alguns minutos conseguiu dar e voltar a tirar, dizer uma coisa e o seu contrário. Nada de muito surpreendente.

 

Esta disponibilidade manifestada através desta proposta envenenada pretendeu apenas que, aos olhos de todos, a responsabilidade de não prosseguir a experiência, a tal que o povo tinha acabado de sufragar, fosse dos camaradas dos partidos à sua esquerda. E assim foi. Já se sabia que o que o Bloco de Esquerda iria querer a mais, os comunistas iriam querer a menos. Já se suspeitava que onde os bloquistas queriam brilhar, o PCP queria passar despercebido. E a inteligente condição de Costa foi a de que a falta de apenas um parceiro inviabilizaria o caminho, ou vão todos juntos ou não irá nenhum. Mais uma vez chegou onde queria. Governar com as suas políticas e com a sua gente, amarrando como podia os outros a soluções e a desígnios com que não concordam. Convenhamos que habilidade continua a não lhe faltar.

 

Tão bem lhe correram os preliminares que resolveu ir ainda mais longe. Não só conseguiu para já o apoio de esquerda para a continuação de políticas ao centro, como blindou o seu núcleo duro a influências extremistas que nunca aceitará. Preparando um apagamento progressivo de Mário Centeno, a subida de Siza Vieira quer mostrar, para dentro e para fora, que no domínio da economia e das finanças nada de substancial irá mudar.

 

A maioria das forças partidárias está ainda anestesiada pelo resultado eleitoral que, verdadeiramente, com exceção do PAN e dos recém-entrados, não correu muito bem a ninguém.  Mas as coisas não ficarão assim eternamente. À direita e à esquerda os posicionamentos estratégicos irão mudar. E se a conjuntura económica internacional se agudizar, realidade que a generalidade dos analistas prevê possa acontecer durante os próximos dois anos, a conflitualidade interna irá aumentar, os resultados negativos irão surgir e os habituais passa-culpas irão inevitavelmente crispar o ambiente político.

 

Um governo minoritário é, e isso nem António Costa consegue iludir, uma solução frágil. Este ciclo político começa ao contrário do que agora termina. Em 2015, todos antecipavam que a "geringonça" não aguentaria a legislatura. Agora, em 2019, os socialistas anunciam que será para quatro anos e que existem todas as condições para assegurar a estabilidade. Desta vez, digo eu, tudo irá concorrer para que o Governo dure menos tempo. Quanto tempo não sei. Aquele que durar a paciência da esquerda e a desorientação da direita. E que a economia aguentar. Depois tudo mudará. E António Costa sabe disso.

 

Jurista

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