António Moita
António Moita 28 de abril de 2019 às 20:30

A Pátria impossível

Não confiam em quem os governa e não estão dispostos, em circunstância alguma, a tomar o seu lugar. O seu futuro passa pela realização dos seus sonhos. E Portugal não os faz sonhar. Veremos quantos anos mais irá durar esta impossibilidade chamada Portugal.

No habitual discurso do 25 de Abril, Marcelo voltou a afirmar que Portugal precisa de mais ambição e de contrariar a ideia de que há objetivos impossíveis de alcançar. Desde logo lembrando que a própria Pátria é uma impossibilidade com quase 900 anos de história. E quis marcar as diferenças entre os jovens de 1974 e os de 2019. Exercício retórico interessante, mas que omite algumas questões relevantes. Designadamente as que impediram que a obra realizada nestas quatro décadas e meia fosse perfeita.

 

Para aqueles que, como eu, viveram o período revolucionário na adolescência, podemos considerar a existência e a participação ao longo destes anos de três gerações diferentes: a dos nossos pais, a nossa e agora a dos nossos filhos.

 

Foi na geração dos meus pais que Abril aconteceu e foi a eles que coube assumir a condução do País. Sem querer desvalorizar o empenho e o amor à Pátria de todos eles, a verdade é que não estavam preparados para tarefa de tal dimensão. A instalação de uma vivência democrática teve de fazer um longo caminho, as feridas de duros combates ideológicos e de conquista de parcelas de poder levaram muito tempo a sarar, os interesses partidários sobrepuseram-se na maior parte das vezes aos nacionais, a dificuldade de obter consensos foi sempre manifesta, os deveres de cidadania ficaram sempre para trás relativamente aos direitos que cada um entendia ser detentor. Assim se foi construindo um Portugal que, apesar do progresso verificado em quase todos os parâmetros de qualidade que queiramos analisar, não deixou de ser desigual e passou a ser mais dependente e menos competitivo.

 

A minha geração viveu quase sempre nesta democracia nascida em Abril de 1974. Feita de gente mais preparada, pelo menos em quantidade, é aquela que hoje conduz Portugal. Na política e nas principais funções públicas, estão aqueles que, na sua esmagadora maioria, construíram uma carreira à sombra ou no perímetro das organizações partidárias de juventude. Nas empresas estão os outros. Os que optaram por prosseguir uma carreira profissional em resultado da sua preparação académica ou aqueles que, por desencanto com a política, se foram afastando dos partidos tradicionais. Ser oriundo de uma qualquer "jota" não constitui uma "capitis diminutio". Mas não ter trajeto profissional relevante, quando se trata de garantir o governo de uma comunidade, pode ser fatal. Temos assim, hoje, uma classe política entrincheirada, fechada sobre si própria, fragilizada e exposta à influência de interesses nem sempre confessáveis.

 

A geração dos nossos filhos é muito diferente. Aí o Presidente tem razão. Mas no que toca ao interesse pela gestão da coisa pública para muito pior. São na sua grande maioria generosos, voluntariosos, criativos, empreendedores, abertos ao mundo. Mas não confiam em quem os governa e não estão dispostos, em circunstância alguma, a tomar o seu lugar. O seu futuro passa pela realização dos seus sonhos. E Portugal não os faz sonhar. Veremos quantos anos mais irá durar esta impossibilidade chamada Portugal.

 

Jurista

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