António Moita
António Moita 01 de dezembro de 2019 às 18:00

Afinal prenderam o Livre

O Chega, por enquanto, é André Ventura. Joacine Katar Moreira é apenas um instrumento para fazer vingar uma estratégia que não foi pensada por ela.

O primeiro mês de vida do Parlamento ficou marcado por discussões em torno das condições de participação dos novos partidos. Onde se sentam e quanto tempo podem falar terão sido as questões mais relevantes. Certo é que a comunicação social largou os partidos tradicionais e começou a prestar atenção a estes fenómenos de representação política por via unipessoal. O acompanhamento é feito tão em cima que por trás de qualquer passo que os deputados debutantes se atrevam a dar haverá sempre uma boa história para contar. As audiências televisivas serão compensadoras.

 

Quando as câmaras estavam viradas para o deputado Ventura, tal foi a dimensão da reação negativa dos assustados partidos do sistema, eis que surge a deputada Joacine a querer disputar-lhe o palco mediático. E conseguiu. Vamos ver quanto lhe irá custar. Já todos percebemos que em ambos os casos, Chega e Livre, o sucesso eleitoral esteve intimamente ligado aos rostos dos candidatos. Sem eles, muito provavelmente, os projetos destas duas forças políticas nunca veriam abrir-se as portas do Palácio de São Bento. É por isso natural que estes dois eleitos reclamem para si o direito de fazer e dizer o que bem entendem.

 

Aqui chegados temos de assinalar uma diferença substancial. Enquanto o Chega se constituiu em torno de uma personagem que construiu um discurso de oportunidade dirigido a um mercado bem identificado, o Livre precisou de encontrar alguém que de forma ruidosa e pouco tradicional atraísse as atenções de uma esquerda urbana, aburguesada e bem-pensante, que acha que o PS é pouco, mas que o Bloco porventura será demais. Clarificando melhor. O Chega, por enquanto, é André Ventura. Joacine Katar Moreira é apenas um instrumento para fazer vingar uma estratégia que não foi pensada por ela.

 

O partido que escolheu para lema eleitoral a expressão "libertar o futuro", eis que atingiu o seu objetivo mal começou. O futuro já se libertou do Livre. Todos aqueles que corriam atrás de uma "sociedade justa num planeta saudável" acabaram por verificar que ficaram dependentes de uma voz que não consegue passar a mensagem, de uma ativista radical e pouco dada a respeitar a opinião alheia, que se esquece de apresentar propostas da sua principal bandeira eleitoral assim que surge a oportunidade, que não tem opinião formada sobre o posicionamento internacional das forças de esquerda no conflito israelo-palestiniano, que foi capaz de encontrar a dimensão do amor como base de discussão sobre o aumento do salário mínimo, para mais aconselhada por alguém a quem nunca ouvimos apresentar uma ideia, mas sobre quem já todos comentámos a excentricidade da indumentária. Ou seja, equívocos atrás de equívocos.

 

A representação política das ideias e os aspetos formais do funcionamento de um sistema democrático não são questões menores. Daí a importância dos partidos. Permitir que o governo de uma comunidade seja entregue a atiradores solitários tem consequências. Felizmente neste caso ficaremos apenas pela anedota. Mas fica o ensinamento. Paradoxalmente, o Livre acabou por se deixar aprisionar. E a pena poderá ser perpétua.

 

Jurista

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