António Moita
António Moita 01 de setembro de 2019 às 20:25

Amizade ou casamento

Mas é claro também que há um socialista, no caso António Costa, que tudo fará para se ver livre do controlo e da pressão dos bloquistas. E é aqui que reside o problema maior.

A questão das coligações à esquerda tem dado que falar nos últimos dias. António Costa responde com uma pergunta. Porquê estragar uma boa amizade com um mau casamento? A pergunta é hábil, permite fugir da questão essencial e deixa entreaberta a porta se as coisas lhe correrem mal, ou seja, se não chegar à tão desejada maioria absoluta.

 

Neste jogo eleitoral em que tradicionalmente se esconde o que realmente se quer e se vão criando ilusões ao eleitorado e aos eventuais futuros parceiros, importa perceber se esta fórmula é apenas uma manobra destinada a não afastar os votos do centro, a não antecipar conflitos no seu espaço político natural ou se corresponde verdadeiramente a um sentimento que se alojou no coração de António Costa.

 

É claro que todos os socialistas sonham com uma maioria absoluta. É claro que alguns socialistas entendem que os votos do centro são essenciais para alcançar esse resultado. É claro que outros socialistas se sentem muito confortáveis numa relação com o Bloco de Esquerda. Mas é claro também que há um socialista, no caso António Costa, que tudo fará para se ver livre do controlo e da pressão dos bloquistas. E é aqui que reside o problema maior.

 

Portugal precisa de reformas profundas. Para isso é fundamental assegurar estabilidade política e capacidade para gerar amplos consensos que poderão até carecer de maiorias parlamentares qualificadas. Mas essas reformas, as tais de que o país precisa, não são as que o Bloco quer. Usando a terminologia de António Costa, para governar Portugal nos próximos anos uma boa amizade não chega. E um mau casamento seria terrível para ambos os cônjuges.

 

Como canta Rui Veloso, "não se ama alguém que não ouve a mesma canção". Qualquer casal que tenha de tomar decisões sobre a construção de uma nova casa, ou sobre obras profundas de remodelação na atual, ou ainda sobre uma viagem tão sonhada que pretende realizar, não vai deixar que seja um amigo a decidir por si. Quando muito pedirá alguns conselhos. Mas a decisão, essa, será sempre sua.

 

O país do Bloco de Esquerda nunca será o país de António Costa. A solução deste problema insanável foi adiada quatro anos em nome da necessidade de sobrevivência política do líder socialista. Mas, como foi tantas vezes afirmado por todos os intervenientes, não será para repetir. E se for, será de novo para resolver alguma questão de sobrevivência política de alguém. Mas terá como consequência um país adiado. E um país adiado no investimento público e na necessidade de atração de investimento privado, na racionalização e modernização do Estado e dos principais serviços públicos como a saúde, no repovoamento e dinamização do interior, na reforma do sistema político, para referir apenas alguns exemplos, será seguramente um país muito pior.

 

Portugal precisa de um casamento estável entre quem ouça a mesma canção. Até outubro, caberá aos portugueses avaliar a compatibilidade dos noivos.

 

Jurista

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