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António Moita 27 de Julho de 2020 às 09:45

Ansiedade, oportunismo e aventuras em tempo de crise

Vamos continuar a encher a administração pública de mais gente e a atirar dinheiro aos problemas do costume. Mais despesa pública sem resolver nenhum dos problemas recorrentes de ineficiência dos serviços.

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Vivemos tempos de grande incerteza económica que não vão terminar com o envelope europeu. Muitas empresas não sabem se conseguirão resistir aos próximos meses e milhares de trabalhadores veem com grande ansiedade a possibilidade de manter os seus empregos. Ao mesmo tempo que o Governo garante a existência de múltiplos quadros financeiros de apoio, os empresários vão dizendo que o dinheiro não chega. Alguns insinuam até que os bancos estão a aproveitar para converter crédito antigo e de cobrança duvidosa em novos financiamentos. Limpam-se provisoriamente os balanços dos bancos, mas não se alimentam as tesourarias das empresas. Bonito serviço prestado à economia. A desgraça acabará por chegar a ambos. A curto prazo às empresas, a médio prazo aos bancos.

 

Ao mesmo tempo estamos a planear a aplicação dos fundos que a Europa nos prometeu. António Costa pede responsabilidade na utilização deste dinheiro e consenso alargado quanto aos projetos a executar. Pisca o olho à esquerda e defende uma espécie de renovação do espírito da geringonça. Ou estamos perante uma declaração de oportunismo político ou o senhor primeiro-ministro não leu o plano de António Costa e Silva e não ouviu as declarações do seu número dois Pedro Siza Vieira sobre o futuro da economia portuguesa. As duas coisas ao mesmo tempo é que não são possíveis. Mas esta necessidade de fazer de conta que governa à esquerda terá certamente consequências. Vamos continuar a encher a administração pública de mais gente e a atirar dinheiro aos problemas do costume. Mais despesa pública sem resolver nenhum dos problemas recorrentes de ineficiência dos serviços.

 

Mas o oportunismo no aproveitamento das crises não é exclusivo do Estado. Temos também muitos empresários que se irão aproveitar da situação. Seja por via de "limpezas" que irão fazer nos seus quadros de pessoal renovando a sua estrutura de trabalhadores trocando experiência dispendiosa por juventude polivalente e menos exigente, mas sempre mais barata. Não é necessariamente errado no plano da gestão empresarial, mas forçosamente irá criar graves problemas a muitas famílias a quem faltam alternativas. Seja também por via da utilização indevida de fundos comunitários. Temos larga experiência nesta matéria e seria bom que não voltássemos a histórias antigas e infelizes. Mas como o Estado não se modernizou nem apostou na sua função reguladora e fiscalizadora da atividade dos privados, temo bem que o resultado seja semelhante. Oxalá o retorno do investimento não seja apenas visível em sinais exteriores de riqueza, mas em apostas na inovação e aumento da produtividade.

 

Temos também os aventureiros. Os que não têm medo do risco elevado ou que não têm outra hipótese senão a de fazer "jogadas de casino". Numa economia de mercado em que a liberdade de iniciativa é permitida e estimulada, não há como impedir estes fenómenos. Mas convém que o Estado se afaste destas aventuras e informe cidadãos menos avisados dos riscos que correm. E já agora, porque não dizê-lo, convém separar as apostas que resultam do desassombro de alguns empresários mais atrevidos, de situações que resultam do desespero. Num momento em que a única coisa que temos como certa é a incerteza em que viveremos nos próximos anos, é dificilmente qualificável a decisão de celebrar contratos milionários como os de Jorge Jesus e de Cristina Ferreira. Não discuto o valor intrínseco destes profissionais. Mas permito-me duvidar do retorno económico que estas contratações terão nas empresas que as assumiram e da turbulência que irão criar no seu ambiente interno e nas injustiças relativas que provocarão. Será irresponsabilidade? Será desespero? Serão ambas?

 

Só espero que quando as coisas correrem mal não seja o nosso dinheiro, uma vez mais, a pagar megalomanias, negócios ruinosos e vigarices. Sejam do Estado, de oportunistas ou de aventureiros. 

 

Jurista

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