António Moita
António Moita 20 de março de 2020 às 20:20

Batalha contra o medo

Se deixarmos morrer a economia em nome do combate à pandemia, estaremos a condenar a população a viver em grande sofrimento ou mesmo a sucumbir no momento em que o vírus já não constituir ameaça. A solução estará, como quase sempre, no bom senso.

Todos elogiam o civismo e a capacidade de adaptação do povo português perante a alarmante situação que a pandemia veio provocar. É certo que assim tem sido nesta primeira fase. Mas teremos condições para manter a mesma atitude durante as próximas semanas ou meses? A pressão da opinião pública para que o Estado de Emergência fosse decretado é um sinal de que a população está alarmada exigindo cada vez mais medidas se possível mais drásticas. Está criada a convicção de que só através do recolhimento obrigatório será possível conter o vírus e mais rapidamente ultrapassar esta crise.

Para além da situação individual de cada família, assistimos ao desmoronar da economia em resultado do encerramento de muitas empresas ainda que mitigada pelas experiências de teletrabalho que facilitam a comunicação, mas que pouco acrescentam, em regra, à produtividade. Sabendo que o tecido empresarial português é particularmente frágil, não tardará a que as dificuldades que todos antevemos se venham a sentir no bolso de cada um. E aí chegados estaremos confrontados com uma realidade bem diferente daquela que conseguimos até agora. A contestação vai subir de tom e a ansiedade das pessoas irá manifestar-se de formas que não podemos prever ou antecipar.

O Governo escolheu uma via do gradualismo, respondendo às necessidades à medida que elas se vão tornando evidentes. Optou por medidas de prevenção pouco restritivas no domínio da saúde pública e por pacotes de linhas de crédito e adiamento de obrigações contributivas na economia e nas finanças. Mas enquanto nada disto chegar à tesouraria das empresas e por essa via à conta bancária de cada um, a instabilidade e incerteza perdurarão. E não nos podemos esquecer dos muitos milhares de trabalhadores independentes, dos que têm contratos precários ou de todos aqueles que trabalham em micro ou pequenas empresas que não terão qualquer capacidade para resistir. Não é uma crítica. É uma constatação.

Urge assegurar rapidamente uma injeção de fundos na economia que permita que o dinheiro continue a circular e por esta via chegue ao maior número possível de beneficiários. E que cada um de nós perceba que ficar fechado e inativo em casa não é o melhor caminho. Não nos podemos deter na inútil discussão sobre se iremos morrer da doença ou se pelo contrário morreremos da cura. O mesmo é dizer que se deixarmos morrer a economia em nome do combate à pandemia, estaremos a condenar a população a viver em grande sofrimento ou mesmo a sucumbir no momento em que o vírus já não constituir ameaça. A solução estará, como quase sempre, no bom senso.

Tratar os doentes, ajudar os mais fragilizados, proteger os grupos de risco, cumprir todas as regras sanitárias e de restrição aos contactos individuais são tarefas fundamentais. Mas prosseguir a atividade produtiva onde for possível, disponibilizarmo-nos para participar como voluntários em cadeias de apoio e solidariedade, aproveitarmos a nossa capacidade criativa (bem patente no humor que é veiculado pelas redes sociais nos últimos dias) para encontrar novas formas de ocupação útil, é também fundamental para a manutenção do equilíbrio emocional individual e para o reforço da autoestima coletiva.

Tão importante como combater o vírus, é não permitir que o medo invada as nossas vidas. E isso só se consegue agindo. Continuar a produzir todos os dias, das diferentes formas que estiverem ao nosso alcance, é assumir a nossa parte na batalha contra o medo. Se o vencermos estaremos a garantir que as próximas semanas serão menos dolorosas. Fisicamente estaremos mais distantes, mas emocionalmente teremos de estar mais próximos e racionalmente mais empenhados na defesa do nosso futuro comum.  

 

Jurista

 

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