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António Moita 14 de Junho de 2020 às 18:05

Centeno: nem herói nem vilão

No centro do poder dentro do Governo, as finanças terão de ceder espaço à economia. Por isso Centeno não seria agora o homem certo. Por não ter esse perfil e, muito provavelmente, por não ter essa convicção. Que mal terá isso? Nenhum.

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Mário Centeno cessa hoje funções. Não diria que seja merecedor de uma estátua defronte ao Ministério das Finanças. Até pela vida difícil que as estátuas têm hoje em dia tal a transitoriedade das posições das opiniões públicas. Mas certamente deveria merecer respeito, não apenas por este ser devido a qualquer servidor público que se destaque no exercício das suas funções, mas também pela capacidade que demonstrou em virar uma página no que concerne à imagem externa das contas públicas portuguesas.

Não é, no entanto, isto que temos ouvido nos últimos dias. Os comentadores do costume parecem muito interessados em apoucar a sua ação dos últimos anos e em condenar esta fuga bem planeada para um lugar tranquilo ou, dito de outra forma, de em nome de um mesquinho interesse pessoal se esquecer de que o país precisa da sua colaboração nestes tempos tão difíceis. A vida política, normalmente quanto termina, é feita de esquecimento e de ingratidão. Convém por isso, embora em contraciclo, recordar alguns factos que marcam a passagem de Mário Centeno pelo Governo de Portugal. Mesmo que hoje ninguém ligue a isso.

Não é por acaso do destino que Centeno se tornou o ministro das Finanças mais popular da nossa democracia. Os portugueses gostam de saber que quem guarda o seu dinheiro o faz com autoridade e o gasta com parcimónia. Mas este galardão raras vezes foi usado em causa própria. Foi António Costa que habilmente retirou o maior benefício desta estranha e pouco usual ocorrência. Em dezembro de 2017 previ nesta mesma coluna que todos se iriam querer “alimentar” de Centeno. Para o melhor e para o pior. E assim tem acontecido.

Centeno governou com pragmatismo, focado no cumprimento de resultados que nos permitissem ter vida mais tranquila em Bruxelas. Fez do défice orçamental uma obsessão e conseguiu anulá-lo. A maioria dos comentadores, os mesmos que agora dizem que o caminho foi fácil, não antecipava sequer a possibilidade de alcançar esta meta em tão pouco tempo. E conseguiu o milagre, especialmente na era pós-Sócrates, de permitir que os socialistas se reclamassem como o “partido das contas certas”. Enquanto Centeno e a sua equipa se ocupavam em garantir que os cofres públicos não seriam arrombados pelo frenesim do aumento de despesa que está no ADN dos bloquistas, comunistas e de alguns socialistas, António Costa, pelo seu lado, conseguia garantir a estabilidade governativa em nome dos “amanhãs que cantam” convencendo, com mestria, que o caminho para o socialismo se fazia com medidas que a direita nunca conseguiria criticar por serem também as suas. Se é certo que o governo da geringonça não teria durado a legislatura sem as promessas de Costa, não é menos verdade que foram os resultados de Centeno que permitiram ganhar eleições.

Foi esta cola que agarrou Centeno a António Costa. Mas já se sabia que esta aderência não resistiria para sempre. E, como em tudo na vida, também este ciclo chegou ao fim. Com pandemia ou sem ela teria terminado. Não foi por acaso que Centeno passou de número três no anterior governo para número cinco no atual. Há hoje novos e importantes desafios para vencer. Com riscos acrescidos em resultado da tão inesperada quanto grave crise económica que iremos enfrentar. Precisa por isso de uma equipa coesa e focada em objetivos muito precisos que estão mais perto do investimento e do apoio à economia que no apertado controlo da despesa pública. Faz por isso todo o sentido dar lugar a outros. No centro do poder dentro do Governo, as finanças terão de ceder espaço à economia. Por isso Centeno não seria agora o homem certo. Por não ter esse perfil e, muito provavelmente, por não ter essa convicção. Que mal terá isso? Nenhum. É absolutamente normal. E uma provável ida para o Banco de Portugal? Também não. É de lá que ele vem e dificilmente encontraremos alguém mais bem preparado para exercer a função com autoridade e independência.

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