António Moita
António Moita 14 de julho de 2019 às 18:00

Dar tudo a toda a gente

O clima pré-eleitoral aquece normalmente a discussão e empurra os candidatos para a demagogia. Mas talvez em razão do calor que se tem verificado nos últimos dias estamos a atingir níveis inimagináveis de provocação à inteligência dos eleitores.

Se à direita o combate se faz do lado da receita, à esquerda é a despesa que embriaga os líderes. Não há imposto que não vá baixar nem há salário que não vá subir. Há até quem proponha as duas coisas ao mesmo tempo. Isto para não falar do enorme crescimento do investimento público e da correspondência imediata com a qualidade dos serviços públicos. Todos sabemos que nada disto é realizável no curto ou no médio prazo, mas ninguém parece ter pudor em avançar com propostas mirabolantes. Se os políticos na sua generalidade já não conhecem níveis elevados de simpatia e de credibilidade, perante os discursos eleitorais com que diariamente nos brindam apenas conseguem cavar ainda mais fundo o fosso que os afasta do país real.

O cenário macroeconómico é a base de tudo. Querem fazer-nos acreditar que o crescimento da economia permitirá criar um excedente que, bem distribuído, resolverá todos as nossas carências e não haverá cidadão que não vá viver melhor a partir de outubro. No meio de tudo isto, é ainda o ministro das Finanças que, utilizando a expressão da mais atrapalhada ministra da Saúde das últimas décadas, nos "ajuda a dormir melhor". A sua intervenção no recente debate sobre o Estado da Nação é disso um bom exemplo. Focado nos objetivos, consciente das dificuldades, conhecedor da fragilidade da situação económica, consegue "fazer política" de forma mais eficaz e credível que todos os políticos profissionais juntos.

Quando será que os partidos irão tomar consciência de que o eleitor português médio atingiu uma maturidade que o leva a saber distinguir entre quem lhe fala a verdade ou quem o quer enganar? Todos queremos melhores serviços públicos, maiores salários ou menos impostos. Mas todos sabemos que a dívida pública e privada continua a ser brutal e que, apesar das taxas baixas, todos os ganhos de produtividade ou todas as poupanças obtidas pela redução dos juros que pagamos nos permitem apenas ir tapando buracos, seja na despesa pública, seja nos orçamentos familiares.

Ninguém irá votar em quem prometer tratar as empresas como a Irlanda, aumentar os salários ao nível da Dinamarca, prestar serviços de saúde como em Inglaterra, obter ganhos de produtividade como na Alemanha, construir equipamentos escolares como a Finlândia, garantir reformas como as da Suécia. Falar de Portugal e da sua realidade, apostar nos portugueses e nas suas capacidades é o único caminho que nos conduzirá a resolver problemas, ultrapassar dificuldades e atingir resultados que melhorem a nossa vida individual e coletiva. Tentando criar a ilusão de que é possível dar tudo a todos é a melhor forma de deixar tudo na mesma. Ou ainda pior.

 

Jurista

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