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António Moita 21 de Junho de 2020 às 20:44

Descubram uma vacina para a banca

De uma vez por todas trabalhemos para acabar com este vírus que ainda não deixou de atacar o sistema bancário português, em que sempre que se alivia a pressão ou a febre baixa, se voltam a cometer precisamente os mesmos erros.

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Não foi por acaso que a banca portuguesa foi considerada durante mais de duas décadas como uma referência pela inovação, pela qualidade dos serviços prestados, pelo apoio a famílias e a empresas e até pela elevada rentabilidade com que remunerava os seus acionistas. Também não é por acaso que nos últimos anos esta realidade deixou de existir e que os bancos passaram a ser conhecidos pelos comportamentos dos seus dirigentes, pelas suas carteiras de créditos incobráveis, pela nula remuneração dos depósitos, pela facilitação do crédito ao consumo a taxas usurárias, pelo elevado nível de comissões que cobram aos clientes, pela deterioração da qualidade de serviços prestado aos balcões e, em muitos casos, pela fraca ou mesmo negativa rentabilidade que apresentam.

Esta transformação radical terá tido apenas origem nas crises económicas e financeiras dos últimos anos? A resposta é não. É evidente que a banca precisa de ter como clientes famílias com orçamentos equilibrados e empresas produtivas e rentáveis. Se umas ou outras, por alguma razão, sofrem um abalo é natural que daí resultam consequências desagradáveis embora muitas vezes pontuais. Para isso servem todas as “almofadas” que os bancos criam seja no preço que praticam seja nas garantias que solicitam.

Banqueiro e figura controversa do século XX, Victor Rothschild dizia que a “atividade bancária consiste essencialmente em facilitar o movimento do dinheiro do ponto A, onde ele está, para o ponto B, onde faz falta”. Dito assim parece simples. E efetivamente é. A vida de um banco devia ser feita de credibilidade, confiança e prudência. Pois foi tudo isto que mudou em poucos anos. Desde logo, usando uma linguagem simples, os bancos passaram a comportar-se como donos do dinheiro que era colocado à sua guarda. E usavam-no como tal. Mas como se este mal não bastasse, perceberam que era mais lucrativo investir na mudança de comportamentos dos clientes. Fomentando nas famílias o consumo em detrimento da poupança, estimulando o investimento das empresas baseadas em planos de negócio de qualidade muito duvidosa e de risco muito elevado sem que os empresários tivessem de se preocupar em aportar o seu próprio capital. Era um modelo de sucesso que parecia convir a todos e em que já nem o céu era um limite. Foi oferecida a entrada no paraíso. Mas sem explicar que o mundo da fantasia não permite estadias prolongadas.

Não vou perder tempo com quem devia ter feito a supervisão desta atividade. Falar de algo que não existe é isso mesmo, uma pura perda de tempo. Que se aprenda com as inacreditáveis omissões, na esperança de que a cumplicidade que existiu não seja dolosa. Fiquemo-nos pela incompetência que sempre é mais simpático.

De uma vez por todas trabalhemos para acabar com este vírus que ainda não deixou de atacar o sistema bancário português, em que sempre que se alivia a pressão ou a febre baixa, se voltam a cometer precisamente os mesmos erros. E não permitamos que nos obriguem a ouvir sempre a cantilena em que se atribui aos outros a culpa pelos maus resultados ficando a distribuição dos proveitos reservada aos mesmos de sempre. Até porque num país em que os bancos já não estão nas mãos de investidores portugueses, querer fazer passar a ideia do risco sistémico já não pega com facilidade. Descubram por favor a vacina contra este vírus que ataca alguns dos principais bancos, ofendendo a nossa inteligência e agredindo os nossos bolsos. Mesmo que, como em todas as epidemias, tenhamos de contabilizar algumas baixas entre aqueles que tudo fazem para manter antigos privilégios ou ver cair algumas instituições que não conseguiram mudar de vida.

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