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António Moita 22 de Novembro de 2020 às 18:20

Estado de Confusão

Perguntaram recentemente ao líder social-democrata se estaria mais perto de ser primeiro-ministro. Rui Rio, um pouco a medo, disse que sim. Surpreendentemente, ou talvez não, isso poderá vir a acontecer mais cedo que se esperaria.

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De um estado de emergência que uniu quase todos, passámos para um estado de confusão que não congrega ninguém. Até os que formalmente aprovam as medidas, logo aparecem a criticá-las. A ideia com que ficamos é a de que a situação está descontrolada e falta racionalidade nas decisões. Se no início se percebia que a novidade justificava a hesitação e mesmo o erro, agora já não há margem para experimentalismos ou para a aplicação de critérios de conveniência política. Ninguém esconde que a situação é difícil e se torna impossível agradar a todos. O que não é aceitável é saber que o primeiro-ministro diz uma coisa hoje e faz outra amanhã ou perceber que se está a legislar “à medida” de acordo com as conveniências partidárias de cada momento recorrendo a argumentos que não combinam com a realidade. Em momentos de crise como aquele que vivemos, as pessoas querem sentir que os decisores mantêm a autoridade e que as decisões são racionais. Pois é exatamente isto que o Governo tem vindo a malbaratar. A autoridade e a racionalidade.

Desde o início da pandemia, tivemos meses de concertação de posições entre Marcelo e Costa. Embora causando desgaste no eleitorado de ambos, a verdade é que se esperava este comportamento dos mais altos representantes do Estado. Unidade na ação e extrema cautela na comunicação. Agora, quando tudo parece ainda mais complicado e a capacidade de resposta do Estado está posta em causa, seja na saúde, seja na economia, parece que encontraram um novo caminho: descentralizar. Em linguagem popular diríamos que querem sacudir a água do capote. Vão passar para os municípios algumas das decisões que não têm coragem de tomar. Apesar de, genericamente, termos hoje autarcas com sentido de responsabilidade e com capacidade de trabalhar em colaboração com os municípios vizinhos, a verdade é que isto não é mais do que a capitulação de um governo cada vez mais fraco e desnorteado perante as dificuldades. Como o ministro da Economia não tem coragem para mandar fechar grandes superfícies comerciais, pois que seja o presidente da câmara a fazê-lo. Como o primeiro-ministro não tem condições para aprovar a realização de um congresso partidário quando proibiu todo e qualquer ajuntamento de mais de seis pessoas, pois que seja o presidente da câmara a assumir essa responsabilidade. E assim por diante seja com os restaurantes, com os centros de saúde, com as escolas, com os eventos culturais ou com tudo o que seja suscetível de causar desconforto. Ora isto não é governar. É tentar sobreviver o tempo que for possível. Sabemos que não poderá durar muito.

E se hoje já é possível sentir que o descontentamento está a chegar às ruas, o que será dentro de poucos meses quando as moratórias terminarem e os “lay-off” se transformarem em desemprego. Mais uma vez o exercício da autoridade e a gestão da crise feita com racionalidade serão exigidos a quem governa. Mas este governo parece não ter condições para o garantir. Por razões táticas encostou-se à sua esquerda e ofereceu a partidos oportunistas um orçamento que sabe ser impossível de cumprir. Acresce que esta perigosa colagem se fez sacrificando, sem necessidade, uma relação à sua direita que António Costa sabe ser imprescindível para ultrapassar os grandes bloqueios que o país tem hoje e que se irão certamente agravar no futuro. Não se peça portanto a Rui Rio que, quando os sinos começarem a dobrar, seja ele a resolver um problema que não criou e a condenar o PSD (ou o centro-direita) a voltar a salvar pela enésima vez o país da bancarrota a que governos socialistas o conduziram. Perguntaram recentemente ao líder social-democrata se estaria mais perto de ser primeiro-ministro. Rui Rio, um pouco a medo, disse que sim. Surpreendentemente, ou talvez não, isso poderá vir a acontecer mais cedo que se esperaria. Basta que António Costa continue a não saber para onde quer ir e permitir que o estado de confusão seja renovado a cada 15 dias.

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