António Moita
António Moita 14 de abril de 2019 às 18:15

Morrer a trabalhar

Desiludam-se aqueles que pensam que a sua contribuição mensal para a segurança social constitui uma garantia da sua própria reforma. Pura ilusão.

A expressão "morto de trabalho" era até aqui usada quando alguém chegava cansado a casa depois de um dia de intensa atividade. Pois parece que no futuro será também usada muitas vezes quando surgir a pergunta: como é que ele morreu? A resposta passará a ser: não sei, morreu a trabalhar.

 

De acordo com a previsão de um estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos a população total em Portugal sofrerá uma redução de 23% nos próximos 50 anos. E a população ativa, essa, irá decrescer 37%. Cenário negro para aqueles que hoje trabalham ou se preparam para iniciar a sua vida ativa. Nenhuma economia ou sistema de pensões é sustentável num cenário demográfico como este. Consequência inevitável da total falta de atenção dada nas últimas décadas às questões demográficas, não teremos hoje como evitar a existência de problemas muito sérios que irão afetar dramaticamente a qualidade de vida dos portugueses.

 

Todos sabemos que o que descontamos hoje, produto do nosso trabalho, é entregue ao Estado e gasto de imediato. E tão bem gasto tem sido o nosso dinheiro…. Desiludam-se aqueles que pensam que a sua contribuição mensal para a segurança social constitui uma garantia da sua própria reforma. Pura ilusão.

 

As medidas sugeridas para fazer face a este problema não são originais. O aumento da idade de reforma e/ou a redução do valor das pensões. Uma e outra atentam contra a dignidade dos trabalhadores e não podem deixar de afetar os alicerces da nossa democracia. Infelizmente os governantes empurram estes problemas com a barriga. A agonia do sistema é lenta e é politicamente prudente atirar com as consequências para lá dos ciclos eleitorais.

 

É muito mais atrativo falar de crescimento económico, de aumento do rendimento disponível ou lançar medidas de estimulo do consumo privado. Seria eleitoralmente demolidor alertar para as consequências desta política. A verdade é que não as podemos esconder. Aumentar a força de trabalho só pode acontecer por duas vias: ou angariamos trabalhadores estrangeiros que vejam rapidamente colmatar as nossas insuficiências ou fazemos aumentar a natalidade. A primeira acarreta graves custos políticos e sociais. A segunda leva mais tempo do que aquele de que dispomos. Mas ambas serão fundamentais para a curto, médio e longo prazo conseguirmos equilibrar o sistema.

 

Paralelamente teremos de estimular a poupança. Até mesmo forçá-la. E a pergunta surge de imediato: mas onde é que eu vou conseguir poupar quando me sobra mês no fim do ordenado? A resposta só pode ser uma e também ela não é original. Parte dos nossos impostos terá de ser canalizada para poupança individual. Se o Estado gastar menos teremos margem para fazer crescer a poupança e aplicá-la nos planos de reforma de cada um. Não podemos ter receio de discutir este assunto. Urgentemente. Antes que a morte nos apanhe a trabalhar.

 

Jurista

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