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António Moita - Jurista 04 de Janeiro de 2021 às 12:21

Não há mal que nunca acabe…

Penso que 2021 marcará uma viragem profunda nas nossas vidas, individual e coletivamente. Convém por isso que as lideranças não desiludam e nos permitam enfrentar os problemas económicos e sociais com determinação, mas com esperança.

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Lá diz o ditado que "não há bem que sempre dure nem mal que nunca acabe". Esperemos que seja mesmo assim. Estou certo de que, ao soar das doze badaladas da passagem, o afastamento dos maus espíritos do ano que findou e os desejos de que tudo seja diferente em 2021 estiveram no pensamento de quase toda a gente. Em princípio estes votos serão concretizados na medida em que, tal como em 2020, tudo ou quase tudo será diferente nos novos tempos que estão a chegar.

 

A pandemia veio mudar muitas coisas e acelerar outras tantas. Saber se estas transformações são positivas para a humanidade é que já é motivo de reflexão. Sabemos que os exemplos de solidariedade aconteceram um pouco por todo o mundo, que muitas atividades económicas conseguiram converter-se, que as questões ambientais e de saúde pública passaram para a lista de prioridades de cada um de nós, que a ciência mostrou toda a sua capacidade e a investigação financiada a sério quando feita de forma integrada produz resultados extraordinários, que os hábitos de trabalho e as exigências ao nível da mobilidade sofreram alterações forçadas mas que tendem a servir de modelo para os próximos anos, entre tantos outros exemplos que aqui poderia deixar.

 

Mas sabemos também que o vírus ainda por aí anda em força e que ao mais pequeno sinal de desconfinamento as pessoas parecem esquecer-se de tudo o que prometeram e, como habitualmente, voltam aos mesmos hábitos e aos mesmos erros que juraram definitivamente mudar. O início de administração da vacina milagrosa foi alvo de uma cobertura sem precedentes. Nunca vi tanta agulha nem tanto braço na televisão. Em todos os canais e a todas as horas. Assinalado como um dia histórico, que sem dúvida alguma foi por muitas e variadas razões, não nos pode fazer esquecer que ainda teremos largos meses pela frente em que muitos milhões de pessoas não terão acesso a este suposto passaporte para uma vida normal. Isto significa, a contrario sensu, que até que as últimas pessoas sejam vacinadas (outro dia histórico) a vida não poderá ser normal. 

 

Boa parte de 2020 foi feito de preocupação e de adormecimento. Preocupação pela incerteza quanto aos efeitos que a pandemia teria sobre a vida de cada um de nós e das nossas famílias. Adormecimento sobre os problemas económicos e sociais que faziam parte da vida de muitas comunidades e que, pelo menos durante algum tempo, passaram para um segundo plano. A incerteza está a dar lugar à realidade e o adormecimento acabou tal o barulho que fazem os problemas que, com estrondo, nos batem à porta. As generalizações nunca são boas e haverá muitos casos de sucesso a registar. Mas a verdade é que vivemos num mundo cada vez mais interdependente e os problemas dos outros, tarde ou cedo, serão também os nossos.

 

Por isso, penso que 2021 marcará uma viragem profunda nas nossas vidas, individual e coletivamente. Convém por isso que as lideranças não desiludam e nos permitam enfrentar os problemas económicos e sociais com determinação, mas com esperança. Determinação que resultará do nosso empenhamento, da nossa resiliência, da nossa capacidade de inovar e transformar. Esperança que será tanto maior quanto verificarmos que o Estado está presente, mas não complica, não desperdiça e não adia e soubermos que o caminho das pedras que teremos de ultrapassar nos conduz a uma situação diferente do ponto em que estávamos antes da pandemia. Dizer que o mundo deve ser mais sustentável passou a ser um lugar-comum e um chavão que está em todos os discursos. Mas temos agora uma verdadeira oportunidade de tornar as nossas vidas, e as dos nossos países, muito mais equilibradas, mais saudáveis, mais solidárias, mais felizes. Para que o bem, que certamente virá, dure mais do que habitualmente. Votos de um Feliz Ano para todos.

 

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