António Moita
António Moita 07 de julho de 2019 às 18:05

Não quero que Rui Rio escolha por mim

O país político saudou a aparentemente corajosa decisão de Rui Rio em apostar em caras novas para ocupar os primeiros lugares das suas listas de candidatos a deputados. Mas será que o país real pensa o mesmo? Não me parece.

Nada me move pessoalmente contra estas escolhas e saúdo todos aqueles que aceitam participar ativamente na vida política. Mas desafio o leitor (se for também eleitor) a pensar bem se hoje conhece os seus representantes na Assembleia da República. Salvo raríssimas exceções os cidadãos de Braga, de Leiria, de Castelo Branco, do Porto ou de Lisboa, para não falar de todos os outros círculos eleitorais, não sabem os nomes dos deputados das suas terras que supostamente legislam, fiscalizam e decidem em seu nome. E isto Rui Rio não conseguirá mudar. Em novembro voltaremos ao mesmo. Ninguém se lembrará em Lousada ou em Matosinhos que tem um representante chamado Hugo Carvalho, ou que uma tal de Ana Miguel Santos representa Castelo de Paiva ou Santa Maria da Feira ou ainda que uma Filipa Roseta estará no Parlamento a defender os eleitores do Cadaval ou de Mafra.

 

O problema está na legitimidade do eleito. Que diferença faz ou que benefício terei, enquanto cidadão, que Rui Rio escolha os candidatos a deputados entre os seus fiéis ou que continuem aqueles que lá estão hoje. Além de questões subjetivas, que o cidadão médio não descortina, tudo irá dar mais ou menos ao mesmo.

 

Se o que se pretende é estabelecer uma relação mais próxima entre eleitores e eleitos então teremos primeiro de estabelecer uma relação de confiança com Rui Rio para depois, com sorte, conseguir chegar ao nosso representante local. Nada disto faz muito sentido.

 

Ser candidato a deputado deveria ser a expressão de um ato de vontade individual ainda que enquadrado numa candidatura partidária. Deveriam ser os eleitores a escolher livremente em cada círculo, aquele ou aquela que gostariam que os representasse. Deveríamos poder votar no Hugo, na Ana ou na Filipa pelos seus próprios méritos e não apenas porque Rui Rio nos garante que eles, além de jovens, são bestiais.

 

Sei que o sistema funciona desta forma e que poucos o querem mudar. A criação de círculos uninominais é algo que serve apenas para animar discussões em salas fechadas, mas que nem os partidos, grandes e pequenos, nem principalmente as estruturas que os suportam, querem que algum dia aconteça.

 

Mas eu também não quero continuar durante muito mais tempo a votar em quem não conheço e, por essa razão obvia, terei dificuldade em confiar. A nossa democracia já tem suficiente maturidade para que os cidadãos possam fazer diretamente as suas escolhas e que não sejam obrigados a aceitar que esse direito esteja apenas nas mãos dos líderes partidários.

 

Jurista

pub

Marketing Automation certified by E-GOI