António Moita
António Moita 08 de dezembro de 2019 às 19:55

O futuro do PSD ou o regresso ao passado

Sejamos sinceros. O PSD de Sá Carneiro morreu com Cavaco Silva. E o deste acabou com Pedro Passos Coelho. Agora restam apenas cacos que alguns ainda se dispõem a tentar colar. O PSD sempre se uniu mais facilmente em torno de interesses do que de ideias.

Passados 39 anos sobre a sua morte, o nome de Francisco Sá Carneiro volta a marcar presença nas discussões internas do PSD, partido que fundou. Seria bom sinal se todos os candidatos quisessem apenas recordar o percurso de um homem que morreu cedo demais, de um político hábil, mas muito firme nas suas convicções, de um líder carismático que arrastava multidões, idolatrado pelos seus apoiantes e odiado pelos seus detratores. Mas assim não tem sido. Os candidatos usam a figura do seu antigo e malogrado líder como arma de arremesso uns contra os outros procurando que os militantes laranjas vejam em algum deles traços ou características que permitam fazer comparações.

 

Esta tentativa de aproveitamento incorre desde logo em dois erros capitais. O primeiro é que ninguém é igual, ou sequer parecido, a Sá Carneiro. O segundo é que tanto o Partido como o país são radicalmente diferentes do que eram na década de 70 do século passado. Poderemos sempre recorrer a frases soltas proferidas então e transformá-las em soundbites muito atuais. Mas convenhamos que com isso não estaremos a demonstrar um pensamento estruturado ou uma proposta política consistente. Estamos apenas a recorrer a um expediente fácil para chegar ao coração de militantes saudosistas de um passado que não volta e desencantados com um presente que não aceitam.

 

Sejamos sinceros. O PSD de Sá Carneiro morreu com Cavaco Silva. E o deste acabou com Pedro Passos Coelho. Agora restam apenas cacos que alguns ainda se dispõem a tentar colar. O PSD sempre se uniu mais facilmente em torno de interesses do que de ideias. Quando apregoam como traço fundamental do partido o seu ADN reformista estão a dizer a verdade. Mas mesmo este atrevimento reformista se deveu muito mais à necessidade de satisfazer a sua base social de apoio e menos em responder a um imperativo ou desígnio nacional. Em certo sentido o PSD foi muitas vezes, quando instalado no poder, o partido da "realpolitik".

 

O que os militantes verdadeiramente querem saber é quem os vai levar mais depressa ao poder. Primeiro nas autarquias, depois no país. Se ninguém lhes der a garantia de que é possível a curto prazo chegar lá, continuaremos a ver sedes fechadas ou abertas pontualmente a grupos locais de amigos que permitem apenas que sempre os mesmos se perpetuem nas poucas cadeiras disponíveis e onde novas ideias raramente são bem-vindas.

 

Ver um partido, qualquer que ele seja, querer conquistar o poder não assusta ninguém. É mesmo esse o objetivo que deverão prosseguir empenhada e permanentemente. O PSD foi sempre o "partido mais português", aquele no qual a sociedade portuguesa encontrava representação. Onde com facilidade poderemos encontrar muitos dos defeitos e das qualidades que nos identificam enquanto povo singular. Paradoxalmente, o PSD do futuro, para singrar, terá de recuperar a matriz do velho PSD. Com gente nova. Mas com a antiga capacidade de lutar, com a intuição para adivinhar o que os eleitores queriam, com uma permanente disposição para o combate interno pelo poder, mas com a inteligência de saber estar unido quando os seus interesses estão em causa. Regressar ao passado será condição para conquistar o futuro. 

 

Jurista

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