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António Moita - Jurista 09 de Maio de 2021 às 17:39

“Odemirem-se”

Encobrimento nuns casos, “amiguismo” noutros, incapacidade de encontrar alternativas na maioria.

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Em virtude da existência de um foco de infeção muito localizado no maior concelho em área territorial do país, Odemira, vieram à luz do dia um conjunto de problemas que muitos sabiam existir, poucos conheciam a gravidade e, como habitualmente, se pôde constatar que quem deveria ter atuado e feito cumprir a lei não o fez. Agora é o passa-culpas do costume.

A hipocrisia com que o Estado, através dos governantes, encara as situações de emergência que vão acontecendo é triste e grave. Triste porque revela os traços de caráter das pessoas em causa. Grave porque evidencia a incapacidade de uma estrutura que nunca previne os problemas e raramente tem um plano para os resolver. Seja em que setor for. Na saúde, na segurança social, nas florestas, nas escolas, na segurança e em tantos outros. Parece que escapam os serviços de finanças. Esses atuam com eficácia e até com excesso de zelo.

Da mesma forma que por todo o país se sabia da existência de lares de idosos que funcionavam à margem da lei, também agora se descobriu que num concelho que tem cerca de 20 mil habitantes, há mais de 10 mil pessoas que trabalham diariamente, de sol a sol, e de quem os serviços públicos não querem saber da existência. As razões desta atitude são diversas, mas sempre idênticas. Encobrimento nuns casos, “amiguismo” noutros, incapacidade de encontrar alternativas na maioria.

Assim como a existência dos lares ilegais era praticamente ignorada pelos serviços públicos porque era evidente a falta de oferta pública ou das instituições de solidariedade social e as famílias não tinham recursos financeiros para suportar os custos dos lares privados, também neste caso toda uma atividade agrícola de sucesso era sustentada pelo recurso a mão de obra pouco qualificada, mal remunerada e recrutada em países onde a pobreza é endémica. Estes trabalhadores migrantes são explorados em Portugal como se vivêssemos num país terceiro-mundista, onde não há leis e os direitos humanos não são respeitados. Mas não foi uma nem duas vezes que assistimos pela televisão a governantes realizarem visitas ou inaugurações de explorações agrícolas que produziam produtos hortícolas de grande qualidade, exportavam em larga escala, repovoavam o Alentejo e contribuíam de forma decisiva para o desenvolvimento da economia portuguesa. O contraste, no mínimo, enjoa.

Agora, quando rebenta o escândalo, toda a gente se indigna, surgem declarações de todos os lados, manifestações de protesto e é usada a fórmula mágica habitual que passa pela nomeação imediata de uma comissão de inquérito e prometida legislação que vai de uma vez acabar com este problema. Governos sucessivos recorreram a este método. O atual, apesar de tudo, apresenta uma característica distintiva uma vez que tem um “bombeiro” de serviço que é pau para toda a obra e que se expõe ao perigo sem qualquer dificuldade nem sentido do ridículo: o ministro Cabrita.

A situação de saúde pública irá acalmar em breve, os trabalhadores migrantes explorados vão voltar aos pardieiros de onde saíram depois de terem sido doados alguns colchões, meia dúzia de instalações sanitárias construídas à pressa serão exibidas e tudo voltará ao normal. A triste e revoltante normalidade de um país em que é habitual fazer de conta que os problemas não existem ou, quando não há outro remédio, inventar que se está a tentar encontrar uma solução para os resolver. Ninguém se “odemire” portanto, em Odemira ou em qualquer outro concelho deste país, se dentro em breve não voltarmos a ser confrontados com vergonhas parecidas.

 

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