António Moita
António Moita 22 de setembro de 2019 às 18:30

Polígrafo para sempre

Talvez seja de maior utilidade colocar um polígrafo em São Bento que faça soar uma campainha sempre que no Parlamento alguém se lembrar de negar o que disse ou arranjar desculpas para não cumprir o que prometeu.

A principal novidade deste período eleitoral tem sido a utilização do polígrafo, procurando detetar as mentiras que vão sendo ditas. A época é propícia a fortes problemas de amnésia sobre posições tomadas no passado e a tentações delirantes nas promessas para o futuro. Estamos, pois, perante um serviço de interesse público.

 

As audiências dos debates entre os diferentes líderes partidários têm excedido as expectativas e, aparentemente, o interesse despertado permitirá augurar uma participação eleitoral interessante. Se a taxa de abstenção não ultrapassar os 30% já nos poderemos dar por satisfeitos. O nível de civilidade entre todos também regista nota positiva mostrando que é possível defender ideias opostas sem faltar ao respeito pelo adversário.

 

É neste quadro que, apesar de tudo, se têm conseguido discutir matérias relevantes para a vida dos eleitores. À cabeça temos a carga fiscal, matéria que não é consensual, mas também a necessidade de aumentar o investimento público e a qualidade dos serviços públicos essenciais, bem como as questões ambientais onde é mais fácil obter o acordo geral. Cada partido fala para os seus alvos preferenciais e, entendamo-nos, é normal que assim aconteça.

 

O comportamento dos protagonistas deste combate e o interesse que tem gerado constituem um bom sinal num sistema que parecia estar cada vez mais desgastado e distante das pessoas. Mas para chegarem a níveis aceitáveis de credibilidade terão ainda os nossos políticos de andar um longo caminho, feito de prestação de provas diárias e, especialmente, falando verdade ao povo. Dir-me-ão os mais céticos, provavelmente a maioria: mas isso não irá acontecer nunca. Talvez tenham razão. Mas se não existir a consciência desta absoluta necessidade para a sobrevivência do nosso sistema político, então iremos continuar a caminhar para o total descrédito da classe política. E isso é o princípio de novas realidades que nunca trouxeram nada de bom.

 

"Muitos prometem, Eanes cumpre" dizia um cartaz de uma campanha presidencial em que o general Eanes foi eleito Presidente da República. A verdade é que, passados muitos anos, a opinião generalizada é a de que estamos perante um homem sério e cumpridor. Oxalá se entenda que precisamos de mais exemplos como este.

 

Recuperar a credibilidade dos políticos passará por falar verdade e cumprir o que se promete. Esperemos que essa nova fase esteja a chegar. Mas, por via das dúvidas, para além de detetar inconsistências diversas entre o que se fez e disse no passado com o que se promete agora, talvez seja de maior utilidade colocar um polígrafo em São Bento que faça soar uma campainha sempre que no Parlamento alguém se lembrar de negar o que disse ou arranjar desculpas para não cumprir o que prometeu. Chegámos a um ponto tal que talvez não fosse má ideia eleger o polígrafo como um novo símbolo da República enquanto garante da defesa dos direitos e interesses dos cidadãos. 

 

Jurista

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