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António Moita - Jurista 19 de Julho de 2020 às 16:00

Presos em tempo de mudança

Estamos presos a modelos ultrapassados, a combinações que não conhecemos, a compromissos sobre que ninguém nos consultou, a regras que limitam a nossa ambição e controlam os nossos passos, a estruturas que se servem de nós quando deviam existir apenas e só para nos servir.

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O tempo é de mudança. Todos percebem que os próximos anos não serão iguais aos que já passámos. Bem dizia Luís de Camões: “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, muda-se o ser, muda-se a confiança; todo o mundo é composto de mudança, tomando sempre novas qualidades.” Não sabemos como será. Mas sabemos que será diferente.

Conviria por isso que nos fôssemos preparando para o que aí vem e tivéssemos disponibilidade para encarar o futuro sem preconceitos ou reservas. Seja nas nossas vidas, seja em comunidade. Passar da intenção à prática é um longo caminho de incertezas e obstáculos a remover. Portugal está cheio deles e os portugueses correm o risco de não poder escolher livremente o seu destino. Estamos presos a modelos ultrapassados, a combinações que não conhecemos, a compromissos sobre que ninguém nos consultou, a regras que limitam a nossa ambição e controlam os nossos passos, a estruturas que se servem de nós quando deviam existir apenas e só para nos servir.

Uma dívida de dimensões bíblicas que nos suga milhares de milhões de euros todos os anos em juros e limita a nossa capacidade de enfrentar os desafios em condições equivalentes aos nossos concorrentes mais diretos. Uma Administração pesada, pouco amiga do cidadão, ineficiente e que consome uma fatia muito considerável dos nossos recursos sem que dela se extraia utilidade equivalente. Instituições que em vez de representarem os cidadãos, se entregam nas mãos de grupos de interesses e em que apenas há espaço para as agendas de uns quantos. Um sistema fiscal asfixiante que assenta numa pequena base de contribuintes que não têm como escapar e em que os impostos, especialmente sobre os rendimentos do trabalho, constituem verdadeiro castigo pelo crime que é produzir. Um sistema partidário dominado por pessoas que não conhecemos e em quem temos dificuldade em acreditar. Movimentos emergentes que se aproveitam das falhas do sistema e que como proposta nos apresentam apenas o protesto como solução mirífica para todos os males. Um sistema judicial que atua sempre tarde e muitas vezes à medida de interesses insondáveis. Um sistema eleitoral caduco que desresponsabiliza quem é eleito e desincentiva o eleitor. Sindicatos monolíticos dominados por pequenos caciques oriundos de aparelhos partidários que atrasam a economia e minam as relações entre empresários e trabalhadores fazendo destes apenas um número para engrossar fileiras de um combate de que nunca beneficiarão. Modelos e estruturas empresariais ultrapassadas que continuam a não contribuir para que o país avance na melhoria dos níveis de produtividade e na criação de riqueza.

Eis alguns exemplos do que nos retira o espaço de liberdade que precisamos para decidir sobre o nosso futuro. É sempre mais fácil criticar do que apontar soluções. Mas a verdade é que há um sentimento global de que a mudança é necessária e urgente. Talvez seja tempo de perceber que este ciclo de desenvolvimento está a terminar, apesar dos méritos que também teve ao nível da evolução social e económica da grande maioria dos povos. Nunca o mundo foi tão rico. Mas a distribuição da riqueza é feita de forma muito injusta. Ou todos estes sistemas se ajustam a esta realidade e respondem prontamente às novas necessidades dos cidadãos ou alguém virá fazer ruturas mais dolorosas e que nem sempre conduzem a soluções mais justas e equilibradas. Se cada um de nós conseguir conquistar progressivamente o seu espaço de liberdade para pensar e agir, libertando-se das múltiplas celas em que o sistema nos mantém presos, começaremos a estar preparados para um novo tempo. Feito de liberdade, de responsabilidade e de fruição de tudo aquilo que construímos e por isso nos pertence e é nosso por direito. E também de altruísmo. Porque a nossa ação só faz sentido enquanto for dirigida ao benefício dos outros.

 

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