António Moita
António Moita 24 de novembro de 2019 às 17:30

Quantos Movimentos Zero queremos ter?

Se os poderes públicos teimarem em não perceber a realidade e persistirem em tentativas de intoxicação da opinião pública contra os insurgentes, continuarão a não contribuir para a melhoria dos serviços públicos nem para a dignificação dos seus trabalhadores.

Movimento Zero surgiu nos últimos meses e tem vindo a marcar posição, especialmente nas redes sociais, na defesa das reivindicações de polícias e outros elementos das forças de segurança. Ao abrigo do anonimato, tem dado voz à revolta e à indignação de milhares de profissionais que deixaram de acreditar nas promessas dos sucessivos governos.

 

Este movimento inorgânico, expressão educada para identificar alguém que não é controlado pelos poderes tradicionais, tem gerado apreensão junto do Governo precisamente pela dificuldade de supervisão que sobre ele existe. Não há partido ou sindicato que mande nele. Se numa qualquer classe profissional esta situação não é desejável, muito menos o será quando falamos de polícias.

 

Como em tantos outros casos, a primeira resposta dos poderes instituídos é a indiferença. Fazem de conta que nada se passa. Quando isto já não se revela suficiente, criam inimigos artificiais embrulhados por estratégias de comunicação, tentando estigmatizar os rebeldes. É precisamente o que está a acontecer agora. Afinal os malandros dos polícias que reclamam da falta de condições de trabalho, dos salários, das mentiras e dos enxovalhos públicos a que têm sido sujeitos são de extrema direita e estão a ser instrumentalizados pelo deputado Ventura. Ora com isto só estão a dar-lhes mais uma razão para protestar.

 

Parece evidente que num Estado de direito democrático em que as forças de segurança desempenham um papel fundamental, não é normal, nem saudável, assistir ao surgimento de movimentos sem rosto que fomentam ações a coberto do anonimato. Mas por alguma razão isto aconteceu. Porque afinal quem apregoa a democracia e os direitos sagrados dos trabalhadores, não só não os escuta como, direta ou de forma encapotada, reprime os principais agitadores.

 

Os servidores públicos, na sua esmagadora maioria, são mal pagos e estão confrontados diariamente com a incapacidade para responder às necessidades da comunidade seja pela escassez de recursos, seja pela desorganização do sistema. Por isso, para além de a remuneração ser insuficiente e de a falta de condições de trabalho ser gritante, correm ainda o risco de serem mal vistos aos olhos da população. E como é evidente isto não os pode deixar satisfeitos. Por isso protestam. Cada um como sabe ou como pode.

 

Mas os agentes das forças de segurança não são diferentes dos médicos, dos enfermeiros, dos professores ou de qualquer outra classe profissional que trabalhe no Estado. Os serviços públicos estão em acelerado estado de degradação e muitos dos que lá trabalham não se conformam. Ainda bem. Por eles e por nós.

 

Se os poderes públicos teimarem em não perceber a realidade e persistirem em tentativas de intoxicação da opinião pública contra os insurgentes, continuarão a não contribuir para a melhoria dos serviços públicos nem para a dignificação dos seus trabalhadores. E a potenciar o surgimento de tantos outros "movimentos zero", tão óbvias são as suas intenções e tão justas são as suas pretensões, que rapidamente ganharão a simpatia da população.

 

Jurista

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