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António Moita 05 de Julho de 2020 às 20:00

Quem irá pagar isto?

Ultrapassar tudo isto depende do esforço dos portugueses que trabalham e do acerto das decisões de quem nos governa. E já que vamos ser nós a ter de pagar isto, ao menos não nos enganem.

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Não serei mais um a discutir a questão da intervenção na TAP, nem a nacionalização da Efacec, nem a anunciada nova necessidade de reforço do capital do Novo Banco, nem algumas outras operações de menor relevo e exposição pública em que o Estado se vai envolvendo. Todas elas serão provavelmente bem-intencionadas e não teriam alternativa viável no curto prazo. Uma coisa parece certa. Os empresários ligados a estes processos, normalmente tão intransigentes quanto à sua liberdade de agir e tão críticos do papel do Estado na economia, acabam sempre por reagir positivamente quando dele precisam para se libertarem de encargos ou financiar prejuízos. Estranhas contradições estas…

Outra coisa que parece certa é que, embora sob a capa de empréstimos, todo este dinheiro será de recuperação mais do que duvidosa. Alguém acredita que os 1.200 milhões de euros que agora vão entrar na TAP serão devolvidos? O novo ministro das Finanças, João Leão, anuncia que esta operação não vai integrar o perímetro das contas públicas à semelhança aliás do que acontece com muitas outras empresas estatais. Perante esta afirmação que visa tranquilizar os contribuintes, a consequência não pode ser outra que não a de tornar evidente que vamos a caminho de uma nova desgraça na economia portuguesa. A pandemia trará consequências muito gravosas a quase todas as empresas portuguesas sejam elas privadas ou públicas. As privadas irão encerrar se não demonstrarem a sua viabilidade. As públicas por cá continuarão independentemente de serem viáveis ou não. A longa mão do Estado, e já agora os nossos impostos, lá estarão para cobrir os prejuízos. Sempre em nome do interesse público.

Ao longo dos próximos meses iremos assistir ao encerramento de muitas empresas. Naturalmente as de menor dimensão serão as primeiras porque menor é também a sua capacidade de resistir. O motor do desenvolvimento da economia portuguesa, as exportações e dentro destas o turismo, sofreu um sério abalo e levará muito tempo a recuperar. Não existe nenhuma outra atividade económica que possa corrigir rapidamente este efeito. Problemas nas empresas significam a diminuição do PIB, o aumento do desemprego, a redução da liquidez e da capacidade de realização de novos investimentos, o aumento do incumprimento com fornecedores e com credores. E não quero acrescentar, para não começar a chorar, a forte possibilidade de surgimento de graves problemas no sistema bancário. Uma crise económica desta dimensão significará sempre para o Estado mais despesa e menos receita.

Não valerá por isso a pena fazer de conta que não vai ser assim. Nem dar a ideia de que os apoios a fundo perdido da Europa resolverão por si só o problema. Ao nível do Estado vamos ter mais prejuízos nas empresas públicas que terão de ser cobertos, mais desemprego que tem de ser subsidiado, mais situações de miséria que terão de ser apoiadas, forte redução das receitas fiscais a começar pela principal, o IVA, que sofrerá um rombo muito sério. A dívida pública, ao invés do que seria obrigatório, irá continuar a subir e sabe Deus a que preço. No Estado só se ouve falar em mais despesa. Funcionários públicos, muitos em casa em descanso forçado, não sofreram qualquer diminuição de rendimento e continuam a exigir a melhoria das suas condições salariais. Na saúde, depois da fatalidade covid-19, voltamos a perceber que a realidade afinal não mudou assim tanto e que os serviços continuam a ser ineficientes, lentos e insuficientemente financiados. Os problemas são muitos e surgem de todo o lado. O otimismo irritante de António Costa servirá de muito pouco nesta fase. A conta vai começar a chegar e alguém vai ter de a pagar. As saídas não são muitas. Ou a despesa desce muito, o que já vimos ser impossível, ou a dívida continuará a aumentar, o que também não parece que os financiadores aceitem, ou os impostos terão de aumentar. Ultrapassar tudo isto depende do esforço dos portugueses que trabalham e do acerto das decisões de quem nos governa. E já que vamos ser nós a ter de pagar isto, ao menos não nos enganem.

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