António Moita
António Moita 02 de junho de 2019 às 18:00

Quer ver Oposição? Então ligue a televisão

Ao nível da informação, as televisões portuguesas, generalistas ou por cabo, optaram por formatos e conteúdos que procuram apenas captar mais audiências.

Muitos são aqueles que criticam o estilo e muitos são também aqueles que deixaram pura e simplesmente de ver estes programas. Os estudos de audiência são elucidativos quanto a esta realidade.

 

Mas não deixa de ser verdade que ao entrar por este caminho, um pouco em resposta ao rápido crescimento da CMTV, a informação televisiva dos canais tradicionais passou a querer dar testemunho diário de acontecimentos que mais não são do que o espelho da vida quotidiana de milhões de portugueses. Aquilo que antes era apenas do conhecimento dos vizinhos passou a ser partilhado com todo o País. O acidente de viação, o crime passional, a violência de bairro, o incêndio no prédio, o assalto à mercearia, passaram a entrar em nossa casa com uma frequência a que não estávamos habituados.

 

Mas esta "televisão-espetáculo" feita normalmente de misérias humanas, permitiu também trazer à tona inúmeras fragilidades dos serviços do Estado nos mais variados domínios. As reportagens diárias são bem demonstrativas. Nos hospitais, nas escolas, na segurança pública, na prevenção de catástrofes e na proteção civil, na arbitrariedade da segurança social e das finanças, nos casos de corrupção ou de falta de transparência na gestão de dinheiros públicos, na investigação de escândalos que até agora eram apenas sussurrados nos corredores do poder, na descoberta e na divulgação de ligações perigosas entre políticos e empresários e tantas outras polémicas que envergonham um povo e atormentam o contribuinte.

 

Podemos não gostar do estilo. Mas a verdade é que estes são hoje os problemas da nossa comunidade. E, como tal, deveriam ser objeto de tratamento e de combate por parte daqueles que governam em nosso nome e que nos dizem querer representar e defender. Os partidos políticos. Mas como estes são incapazes de o fazer, seja por cumplicidade seja por incompetência, fica nas mãos da comunicação social esta responsabilidade e este contributo cívico. Claro que muitas vezes o tratamento que dá a estas matérias não é imparcial, nem isento, nem integralmente respeitador das regras deontológicas da profissão. Mas à falta de melhor é o que temos.

 

A abstenção verificada nas recentes eleições europeias não é sinónimo de indiferença. É apenas resultado do descrédito de um sistema partidário e da total falta de confiança nos seus protagonistas. Passem os políticos, provavelmente outros, a demonstrar proximidade e genuína preocupação com a vida das pessoas propondo soluções concretas, coerentes e credíveis para as ajudar e veremos se as coisas não começam a mudar. Até lá estamos condenados a que o combate político em nome da comunidade seja feito apenas por jornalistas e por televisões. Não é certamente essa a sua função. E é muito perigoso para a democracia.

 

Jurista

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