António Moita
António Moita 25 de agosto de 2019 às 17:02

Serviços públicos mínimos. Serviços privados máximos

Sem dinheiro para fazer o que é justo e necessário e sem condições políticas para fazer reformas, António Costa vai ultrapassando de forma hábil todas as dificuldades.

Procurar entender o que se passa todos os dias em Portugal à luz de critérios tradicionais arrisca-se a ser uma tarefa de grande dificuldade. Nada é muito normal. Aquilo que se diz não é o que se faz e o que se prometeu para hoje fica sempre para amanhã, mas verdadeiramente ninguém se importa muito com isso. Os portugueses parecem conviver bem com quem os engana ou com quem lhes atira com promessas, optando por não lhes ligar nenhuma. Se é certo que esta maneira de ser e de estar nos poupa a incómodos e a desilusões, também é provável que ela não nos poupe a desgraças futuras ou a uma deterioração progressiva da qualidade da nossa vida coletiva.

 

Convivemos recentemente com quatro greves de natureza e dimensões muito distintas e de impactos bem diferentes. A dos camionistas, a dos trabalhadores dos registos e notariado, a dos enfermeiros e a dos tripulantes da Ryanair. A curiosidade é que foram definidos serviços mínimos pelo Governo justamente nas paralisações que tiveram origem no setor privado. E foram de tal monta que os postos de abastecimento, mal ou bem, continuaram abertos e não há notícia de cancelamentos de voos da companhia aérea irlandesa. Já dos enfermeiros e dos serviços de registo e notariado, não temos notícia. Parece que fazer greve no setor público é normal e não provoca nenhuma angústia especial aos nossos governantes.

 

Sem dinheiro para fazer o que é justo e necessário e sem condições políticas para fazer reformas, António Costa vai ultrapassando de forma hábil todas as dificuldades. E as que mais o preocupam são as que poderão afetar o resultado eleitoral de outubro. Tendo percebido que o povo português, embora muito alheado da política, aprecia aqueles governantes que são de contas certas e que sabem exercer a autoridade, eis que o consegue sem gastar um tostão e sem recorrer à força.

 

Não conseguindo fazer melhor dentro de casa, eis que o Governo se lembrou de ir governar a casa dos outros. Esta estratégia de ganhar votos impondo regras ao setor privado é uma descoberta extraordinária. O país lá vai funcionando, o povo lá vai tendo assunto de conversa e Mário Centeno agradece.

 

O problema é que no setor público, onde o Governo deveria impor a sua autoridade e onde era necessário fazer bem as contas, nada disto acontece. Faltam meios para tudo. Nos hospitais, nas escolas, nos tribunais, nos transportes, nas forças de segurança e em todo o lado onde o Estado tentacular quer chegar. As cativações de Mário Centeno e a falta de autoridade do Governo perante o ministro das Finanças vão acentuando as enormes fragilidades dos serviços públicos que todos pagamos com os nossos impostos.

 

Para que tudo volte a ser normal, espero que a partir de outubro tenhamos um governo que cuide ao máximo dos serviços públicos e que intervenha o mínimo no funcionamento do setor privado. Será mais difícil. Mas é o que é necessário.

 

Jurista

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