António Moita
António Moita 06 de outubro de 2019 às 14:48

Verdadeiramente ao Centro

Não deixa de ser curioso que num país em que as eleições se ganham ao centro, o político mais centrista do regime democrático nunca tenha tido a simpatia da maioria dos eleitores.

Logo em 19 de julho de 1974, no primeiro comunicado emitido pelo CDS no dia da sua fundação, se escrevia estar este "novo partido político aberto aos democratas do centro-direita e do centro-esquerda" na construção de uma "sociedade inspirada nas tradições democráticas e humanistas da Europa Ocidental". Estava encontrada a matriz de uma proposta política baseada no humanismo personalista, na liberdade e na iniciativa privada como condição para o progresso económico capaz de conduzir a uma redução acelerada das desigualdades sociais. A "Declaração de Princípios" com que o CDS nasceu, e que merece voltar a ser lida, reflete de forma absolutamente transparente o pensamento político dos seus fundadores e em especial o de Diogo Freitas do Amaral.

 

É natural que a evolução do mundo permita novas abordagens de problemas antigos e conduza mesmo ao desabar de ideias e de sistemas que pareciam ter sido criados para todo o sempre. Não é este, no entanto, o caso. A carta de valores apresentada em 1974 pelo CDS permanece atual e poderia ser defendida sem hesitação por todos aqueles que hoje, 45 anos depois, se posicionam ao centro do espetro ideológico em Portugal. Todos aqueles que, assumindo-se como moderados, defendem, em simultâneo, ideias consideradas de esquerda pela direita tradicional e ideias rotuladas de direita pela esquerda tradicional.

 

Este posicionamento centrista, ancorado embora numa visão democrata-cristã e da Doutrina Social da Igreja de defesa de princípios fundamentais como a liberdade, a justiça ou a solidariedade, acompanhou Diogo Freitas do Amaral durante toda a sua vida. A não aceitação de extremismos ou de soluções radicais, em Portugal ou no mundo, e a firmeza com que sempre o fez, nunca foi muito bem compreendida e aceite na sociedade portuguesa, particularmente nos últimos anos em que num contexto de comunicação acelerada e de procura de mediatismo, não existe tempo nem espaço para a discussão das ideias e para a reflexão profunda sobre o caminho que estamos a percorrer. Parece que nos dias de hoje só existem dois lados numa determinada realidade: o por mim ou o contra mim, o branco ou o preto, a esquerda ou a direita, o eu e só depois o outro. O Ter continua a vencer o Ser. E todos vamos caindo na tentação de julgar os outros, com cada vez maior rapidez e severidade, em função do que nós gostaríamos que fosse dito ou feito sem cuidar de respeitar a liberdade individual de cada um. 

 

Muitos acusaram Diogo Freitas do Amaral de ter tido um percurso errático, quase oportunista e até de traição ao espaço político que o apoiou. Politicamente terá morrido sozinho. Mas tal como ele escreveu num dos seus livros de memórias, prezava mais a liberdade do que a propriedade. Foi essa liberdade que lhe permitiu manter a fidelidade aos seus valores e aos seus princípios. Durante toda a vida. Será essa fidelidade aos princípios e aos ideais que fará com que continue a ser lembrado. Porque é dessa têmpera que são feitos aqueles que estão destinados a ficar na história.

 

Jurista

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