António Moita
António Moita 15 de dezembro de 2019 às 17:25

Viver a crédito. Quem é que não aprendeu a lição?

A banca portuguesa ou não tem memória ou não tem vergonha. Provavelmente as duas coisas. Já se esqueceram dos prejuízos financiados pelos contribuintes, das carteiras de crédito malparado ou mesmo tóxico vendido a preço de saldo.

Em 2019 estão a ser batidos todos os recordes na concessão de crédito. Até outubro, já cerca de 15 mil milhões de euros foram emprestados às famílias. Seja para habitação seja para consumo, os portugueses continuam a recorrer ao crédito para satisfazer as suas necessidades. Básicas ou supérfluas. E os bancos continuam a fazer de conta que tudo irá correr bem.

 

A banca portuguesa ou não tem memória ou não tem vergonha. Provavelmente as duas coisas. Já se esqueceram dos prejuízos financiados pelos contribuintes, das carteiras de crédito malparado ou mesmo tóxico vendido a preço de saldo e de forma nada transparente a quem sabe ganhar muito dinheiro com a desgraça alheia, da incapacidade de financiar a atividade das empresas nacionais com um preçário decente ou das medidas de recuperação que tinham como critério quase exclusivo a fraqueza negocial com os mais fortes e a prepotência e inflexibilidade com os devedores particulares de menores recursos, dos milhares de clientes lesados que tiveram a audácia de acreditar que, tal como no passado, os bancos eram pessoas de bem que baseavam a sua atividade num valor fundamental: a confiança.

 

Apesar de tudo existe uma diferença em relação ao passado. Talvez para pior. A banca deixou de ser nacional. Nenhuma instituição de crédito, com a exceção óbvia da Caixa Geral dos Depósitos, é detida hoje por capitais portugueses. Entre chineses, espanhóis, angolanos e fundos de investimento de proveniências diversas e difusas, foram divididos os despojos de guerra causados pela crise das dívidas soberanas e pela recessão que nos foi imposta. Claro está que passámos a estar ainda mais dependentes da evolução dos mercados globais e de critérios de gestão que não são compatíveis e são mesmo por vezes inconciliáveis, com o interesse específico de um mercado tão insignificante como o português.

 

Todos os analistas nacionais e internacionais apontam para a iminência de um novo período recessivo considerando as dificuldades de crescimento verificadas e estimadas para as principais economias mundiais. Poderá não acontecer imediatamente ou não ser tão forte quanto alguns anunciam. Mas agitação haverá sempre que surja uma pequena turbulência em algum dos mercados principais de destino das nossas exportações.

 

Não tenho nenhum prazer em fazer previsões pessimistas sobre a situação futura do país. Mas não é preciso ser um génio da economia, ou jogar na equipa do nosso Ronaldo das finanças, para perceber que uma pequena redução das exportações, aliada a uma ligeira subida nas taxas de juro, conjugada com um aumento ainda que simbólico das remunerações na função pública, acrescida de uma ténue pressão sobre a necessidade de pagar a tempo e horas aos fornecedores do Estado ou realizar investimento em serviços públicos à beira da rutura, sempre provocará um tsunami, este sim já de enormes dimensões, numa economia aberta e muito dependente, incapaz de se financiar dada a brutal dívida que carrega às costas e de que não se livrará nas próximas décadas.

 

Vai começar a discussão do Orçamento do Estado para 2020. Aqui se verá se alguém aprendeu a lição. Sabendo que o dinheiro escasseia veremos quem percebe que o investimento na economia gera crescimento e que injetar dinheiro no Estado não resolve nenhum problema e apenas gera mais despesa. Por favor não ouçam a banca. Ninguém, nem sequer os países, consegue viver toda a vida com o dinheiro dos outros.  

 

Jurista

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