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O pecado capital

Não há na história de Portugal um negócio tão ruinoso como o casamento forçado entre a PT e o telegangue brasileiro da Oi. A PT  entregou 3,7 mil milhões de euros para entrar numa operadora com má fama, forçada pelo primeiro-ministro de Portugal, na altura José Sócrates.

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Do dinheiro que  PT entregou, 1,2 mil milhões foram distribuídos  pelos accionistas brasileiros. Há suspeitas dos dois lados do Atlântico de que parte deste dinheiro tenha ido para pagar luvas a políticos.

 

Quando as coisas começaram a correr mal, a Oi desfaz a PT e vende a operação em Portugal com um encaixe superior  a 7,4 mil milhões de euros. Feitas as contas, entre a venda da PT e o prémio inicial, Portugal perdeu na Oi mais de 10 mil milhões de euros. Os portugueses que foram para o Brasil tentar fazer da empresa luso-brasileira uma operadora a sério acabaram recambiados, e a empresa que sonhou ser um gigante lusófono de telecomunicações termina  muito mal cheia de dívidas e com calotes a milhares de investidores portugueses que acreditaram que manter as obrigações da PT na responsabilidade da Oi seria um bom negócio.

 

O que ficou em Portugal da PT, a Pharol, pouco mais é do que um banco de ativos tóxicos, com a participação accionista na Oi e o crédito ruinoso de 997 milhões de euros à Rioforte.

 

Ao contrário da Caixa Geral de Depósitos  onde Sócrates é apenas suspeito de induzir créditos ruinosos, no caso da PT, há provas suficientes para responsabilizar politicamente o antigo primeiro-ministro.

 

Ao condicionar a aprovação da venda milionária da participação na Vivo à manutenção de uma presença forte da PT no Brasil,  o então governante estava a entregar a PT à Oi, liderada pelo pior das ligações empresariais  à política brasileira. Era o telegangue,  e os seus accionistas de referência foram apanhados na malha do Lava Jato.

 

Como  lembrou o trabalho de Sara Ribeiro e Rui Barroso, aqui no Negócios, José Sócrates disse na celebração da parceria que era "um excelente acordo para o interesse estratégico de Portugal".

 

Ricardo Salgado, que tem em comum com Sócrates e os patrões brasileiros da Oi ser arguido em processos milionários de crimes de colarinho branco, prometia na mesma altura um "reforço do desenvolvimento económico" em Portugal e no Brasil.

 

Isso não aconteceu, mas o desenvolvimento de luvas entre os países irmãos teve certamente um apogeu nestes cinco séculos depois de Pedro Álvares Cabral ter chegado a Porto Seguro.

 

Ainda há muito a saber sobre os prémios políticos desta operação, mas a cedência de 18,5 milhões de euros que Ricardo Salgado fez a Zeinal Bava e que o ex-presidente da PT já devolveu, porque considerava ser  apenas um empréstimo,  já é suficientemente mau demais. Um episódio que não passaria impune em países que respeitam a responsabilidade dos agentes de mercado e dos gestores de empresas cotadas.

 

O desastre da PT resulta do pior da tradição deste regime democrático, em que políticos, banqueiros, gestores, decidiam em conluio o que era bom para eles no curto prazo e nunca o que era melhor para o país e para as empresas visadas a médio e longo prazo. Afundaram uma grande empresa e quem lhes vai pedir contas? Nem os subscritores do empréstimo obrigacionista que agora a Oi não vai honrar.

 

Director-adjunto do Correio da Manhã

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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