Armando Esteves Pereira
Armando Esteves Pereira 28 de abril de 2016 às 00:01

Ameaça alemã  

Quando António Guterres disse em Madrid, na cimeira que escolheu o nome da divisa europeia, " tu és euro e sobre ti construirei a Europa", exagerou no optimismo. A divisa não favoreceu a comunidade, mas consolidou o império alemão.

Na prática, com as regras impostas, a Zona Euro adoptou  o marco alemão com outro nome. E como não foram corrigidas as diferenças de competitividade, a grande ideia levou a que fosse construído um novo muro na Europa, desta vez invisível e sem arame farpado, entre o Norte rico e o Sul mais pobre e endividado.

 

Mas acontece que as famílias alemãs sofrem agora um  efeito colateral  do euro: a baixa de juros. A política do BCE que favorece milhões de portugueses com o alívio na prestação mensal do crédito à habitação, mas é um desastre para a maioria dos concidadãos da senhora Merkel que assistem a uma erosão do rendimento dos juros das suas poupanças.

 

As diferenças na Zona Euro são mais do que económicas. Há questões culturais profundas e atitudes face ao dinheiro distintas. Enquanto os portugueses passaram em menos de uma geração do topo da poupança para o grupo dos mais endividados do mundo, as famílias germânicas continuam a censurar as dívidas e consideram a poupança um dever. Não é por acaso que uma família média alemã vive de maneira mais frugal do que uma família francesa, ou  portuguesa,  com o mesmo nível de rendimento.

 

A quebra de juros da poupança é um assunto político relevante em Berlim. Não é por caso que o ministro das Finanças já criticou a política do BCE. À direita da CDU há um partido extremista disposto a aproveitar  o descontentamento. Um dos líderes deste movimento nacionalista defendeu a exclusão de França e dos países do Sul do euro. Não é só a moeda única que corre perigo. A União Europeia pode estar em risco.

 

Director-adjunto do Correio da Manhã

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