Armando Esteves Pereira
Armando Esteves Pereira 19 de julho de 2018 às 20:24

E aos costumes, Pinho disse nada

Manuel Pinho foi ao parlamento e não deu qualquer explicação sobre o facto ignóbil de ter recebido uma mesada milionária do Grupo Espírito Santo, enquanto exercia funções governativas.

Esta semana Manuel Pinho foi ao Parlamento e sobre a questão fundamental: os pagamentos do saco azul do GES que recebia enquanto era ministro nada disse. A maquia de quase 800 mil euros que recebeu enquanto ministro revela um acto ignóbil. Um ministro da República portuguesa não pode servir nenhum outro senhor, além do Estado que representa. Ao manter a remuneração pela porta do cavalo, cometeu um grave crime que lesa a democracia e o Estado de Direito, além se ser um atentado a toda a ética exigida a um titular de cargo público.

 

Antes de ir ao Parlamento, Pinho foi ao DCIAP, mas através de um incidente processual acabou por inviabilizar a inquirição. Ganhou tempo.

 

Sobre a questão da energia, também pouco adiantou. As empresas e as famílias pagam uma factura exagerada. Na prática, esta conta representa um imposto político extraordinário que encarece o custo de vida e agrava os encargos das empresas.

 

O próprio Manuel Pinho em linguagem popular, reconheceu no parlamento que a factura da electricidade é uma vaca leiteira. E o bovino alimenta muitos interesses. Mas parece que o animal é de geração espontânea, nem tem pai, nem mãe. Este é um dos casos em que um pequeno grupo constitui uma labiríntica rede de interesses, com aval político, contando em muitos casos com a ignorância dos deputados que nem sabiam o que estavam a aprovar, para constituir uma clientela de interesses e rendas, garantidas pelos consumidores de electricidade.

 

Sobre este tema foi interessante ouvir no parlamento Clemente Nunes Pedro, professor emérito do Instituto Superior Técnico. Este especialista em questões de energia lembra que nunca se sentiu "tão mal como quando Sócrates anunciou 8000 MW de energia bonificados", subsídios pagos pelos consumidores na conta da luz. Clemente Nunes Pedro explicou o 'cocktail explosivo' que decorre da combinação de contratos de aquisição com os subsídios às renováveis, através da tarifa da electricidade.

 

Isto faz com que os consumidores paguem por um lado as energias renováveis a um preço superior ao do mercado e ao mesmo tempo sejam sobrecarregados com as compensações às centrais com os contratos CAE e CMEC.

 

Era bom que o processo que agora está a ser alvo de escrutínio parlamentar acabe com o alívio da factura eléctrica aos consumidores. E já agora que os cidadãos saibam os nomes de todos os políticos que arquitectaram a teia dessas rendas. Seria um avanço extraordinário num país onde a culpa política é órfã e tende a morrer solteira.

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