Armando Esteves Pereira
Armando Esteves Pereira 25 de julho de 2016 às 00:01

Elefantes em lojas de porcelana 

A vida não está fácil para os bancos portugueses. Um setor que nos anos de 1980 e 1990 se destacava na Europa pela modernização, pela inovação nos serviços, agora surge, a par da banca italiana, como um dos riscos sistémicos para a economia global.

As margens esmagadas com os juros em mínimos históricos e a montanha do crédito malparado contribuem para a situação. Este Governo não tem culpa no estado de crise a que o setor chegou, mas António Costa e o ministro Mário Centeno têm tido uma atuação tão desastrada no que diz respeito ao sistema financeiro, que lembram mesmo a imagem dos elefantes numa loja de porcelana.

 

Os atrasos na mudança da administração da Caixa Geral de Depósitos são um sinal que algo vai mesmo muito mal. E um indício de incompetência política para resolver o problema. A administração cessante já pediu encarecidamente para sair, porque o mandato terminou e a nova gestão demora a aceitar o lugar. E são muitos. A proposta do Governo com uma equipa de 19 membros para o banco público, instituição que só tem um acionista, é ridícula. Este detalhe é relevante, mas não é o mais decisivo. Mais preocupante é a questão da recapitalização. Ainda não se sabe, ao certo, quanto é que os contribuintes irão pagar, mas será certamente uma fatura pesada. Haveria outras alternativas ao financiamento à custa do dinheiro dos impostos, como a venda de ativos e o emagrecimento de um banco que perdeu milhões por fazer favores ao poder político.

 

Com o Novo Banco, as declarações do primeiro-ministro e a carta enviada a Bruxelas são um ato lamentável. O Governo tem todo o direito de dizer que não entra mais dinheiro público no banco que a resolução considerou o bom do ex-BES, mas acrescentar que se até ao próximo verão não houver nenhum comprador a instituição será liquidada de forma ordeira é criar instabilidade desnecessária numa instituição, onde trabalham 6.500 pessoas e que tem milhões de clientes. Além de poder desvalorizar o banco, onde direta e indiretamente há muitos milhões de euros do Estado. Quem disse que os contribuintes nunca pagariam a resolução do BES? Nem que seja através da Caixa Geral de Depósitos, o principal sócio do Fundo de Resolução, que é o atual dono do Novo Banco.

 

Mas este Governo começou muito mal com a banca na solução encontrada para o Banif. O Santander ficou com o negócio e a parte boa do Banif e mesmo assim o Estado entregou um generoso fundo de maneio ao comprador. Essa generosa contribuição agravou o défice de 2015, pesando ainda mais na imagem de má fama das contas públicas nacionais.

 

O Executivo alega que o Banif lhe explodiu nas mãos e culpa Passos Coelho e a ministra Maria Luís Albuquerque por terem adiado a resolução do problema. Mas a forma subserviente como um Governo soberano se portou perante os tecnocratas da Comissão Europeia e do BCE é um episódio lamentável.

 

Entretanto, o inquérito parlamentar ao Banif culpa acionistas e gestores pelo colapso do banco. Um modelo de negócios insustentável, com grande exposição ao negócio imobiliário arruinou o banco e obrigou os contribuintes portugueses a perder cerca de três mil milhões de euros, entre o incentivo ao Santander e as obrigações contingentes que nunca foram devolvidas.

 

A banca portuguesa não tem o feito sistémico global que o relatório do FMI indica, mas para a economia portuguesa tornou-se o principal calcanhar de Aquiles.

 

Director-adjunto do Correio da Manhã

 

Este artigo está em conformidade com o novo acordo ortográfico 

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