Armando Esteves Pereira
Armando Esteves Pereira 03 de fevereiro de 2017 às 00:01

O marquês, o amigo e o telegangue 

Dez anos é muito tempo como lembra a canção de Paulo Carvalho. E foi há precisamente uma década  que o conluio entre accionistas dominantes e o poder político tomou uma decisão que se viria a revelar um desastre para a economia portuguesa: o chumbo à OPA lançada pela Sonae à PT. 

Sabe-se agora,  graças à investigação da Operação Marquês e aos testemunhos  de elementos-chave,  que a decisão política não se deveu ao mérito da gestão da PT nem teve como objectivo a salvaguarda da quase multinacional de base portuguesa, que era a então Portugal Telecom. Já antes da reprovação,  em assembleia-geral,  da OPA,  a 2 de Março, para o qual foi determinante o voto e a acção da Caixa Geral de Depósitos , o homem que chefiava o governo com o conforto de uma maioria absoluta no Parlamento  beneficiava de generosas transferências do Grupo Espírito Santo.  Em 2006, coincidindo com o anúncio da oferta de compra, começaram  a transferência de milhões do chamado saco azul  do GES para o amigo generoso de José Sócrates, Carlos Santos Silva, que serviu de fiel barriga de aluguer para a fortuna que o  poderoso primeiro-ministro acumulava. E foi desse mesmo saco azul que seguiram milhões para premiar a gestão da PT.

 

Mas a influência nefasta de Sócrates na PT viria a revelar-se mais tarde, quando condicionou a venda da Vivo à manutenção da actividade da empresa no Brasil, e em parceria com Lula entregou a grande empresa portuguesa nos braços do telegangue da Oi. Não é por acaso que na Lava Jato, há accionistas de referência da Oi envolvidos com a justiça brasileira. Foi a estes senhores de duvidosa credibilidade que a PT se entregou. O casamento entre as duas entidades foi um desastre. Entre o que a PT aplicou, aumentos de capital e a posterior venda da operação telefónica em Portugal à Altice, queimaram-se mais de 10 mil milhões de euros. Daquela PT permanece um esqueleto que é quase um banco de activos tóxicos, a Pharol. Gere a participação na Oi e a dívida da Rioforte.  E vale uma fracção em bolsa do que valia a imperial PT. Uma história trágica, sem moral.

 

Director-adjunto do Correio da Manhã

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