Armando Esteves Pereira
Armando Esteves Pereira 22 de março de 2018 às 21:10

Políticos doutores, mas bárbaros da gramática 

Em Portugal, é possível fazer-se um doutoramento e ser professor universitário sem saber as regras básicas da gramática que antigamente se exigia nos exames da quarta classe.

O triste escândalo sobre o currículo académico adulterado de Feliciano Barreiras Duarte é mais uma prova da possibilidade de pessoas tecnicamente analfabetas conseguirem triunfar na política e nas universidades. O homem que escreve uma tese na qual coloca vírgulas entre o sujeito e o predicado, que não tem a mínima ideia das normas de sintaxe, um verdadeiro bárbaro da gramática, é professor universitário. O caso é também exemplar da degradação cultural e intelectual das elites.

 

Nem sequer é preciso um estudo sociológico aprofundado para confirmar a erosão da elite política. Basta comparar a composição do Parlamento na primeira assembleia constituinte deste regime democrático com o actual Parlamento.

 

A democracia criou um tipo de político profissional, em geral mal preparado, academicamente, com resiliência nas máquinas partidárias, que sobrevive e conquista poder nos partidos. Com o tempo, acabam frequentemente à frente de importantes organismos do Estado. Feliciano Barreiras Duarte chegou a secretário de Estado.

 

O percurso de Feliciano na batota académica ainda chega a ultrapassar o de Sócrates, detentor de uma licenciatura tirada ao domingo, ou o de Miguel Relvas, o rei das equivalências. É que Feliciano, o bárbaro da gramática, é professor universitário, o que também diz muito sobre a vida universitária.

 

A degradação académica das elites políticas é tanta que hoje a fina ironia de Eça  ou de Camilo sobre os  políticos do século XIX corre o risco de não se perceber. O conselheiro Acácio ou o Conde de Abranhos criados por Eça de Queirós, com todos os seus defeitos, têm um mundo cultural muito superior aos professores Felicianos do século XXI. E certamente Calisto Elói de Silos e Benevides de Barbuda, o deputado de "A Queda dum Anjo", leu mais livros do que estes políticos académicos.

 

Os fictícios conselheiros Acácios e Calistos Elóis representam uma forma de fazer a política do século XIX, tal como os reais Felicianos, Relvas e Sócrates, podiam ser figuras de ficção que são exemplares da fraca elite do século XXI.

 

Feliciano é um autor de vasta obra publicada. Confesso a minha ignorância, mas não tive o prazer de ler algum livro deste profícuo autor do Oeste. E é provável que, ao contrário de Sócrates que pagou uma fortuna a um académico para ser o escritor-fantasma de um livro e da tese, Feliciano seja o verdadeiro criador.

 

E além da falta de vergonha, toda esta mediocridade académica é o espelho da qualidade média do ensino em Portugal.

 

Saldo positivo: de costureira a empresária

 

Conceição Dias, de 56 anos, largou cedo a escola e aos 13 começou a trabalhar como costureira. Menos de 10 anos depois investiu todas as poupanças e gastou os 180 contos (900 euros) em cinco máquinas industriais e tornou-se empresária. Agora factura 60 milhões de euros por ano e a sua empresa ganhou a corrida para as instalações da antiga e falida Ricon, a empresa que produzia para a Gant. Esta é uma bela história e o exemplo da senhora Conceição Dias  merece ser destacado. 

 

Saldo negativo: crime de negligência impune  

 

O extenso relatório sobre os maiores fogos da Europa que devastaram o coração da Beira , no dia 15 de Outubro e na madrugada do dia 16, mostra um Estado falhado que abandonou as populações à sua má sorte. Provavelmente era impossível evitar fogos, mas o Estado permitiu que as chamas devastassem uma grande área. Além de todos os prejuízos há 48 mortes a lamentar. Se os responsáveis cumprissem o seu papel a maior parte das mortes tinha sido evitada. Mas estes crimes de negligência ficam impunes.

 

Algo completamente diferente: o roubo de dados na selva das redes sociais 

 

O roubo de dados de utilizadores de Facebook por uma empresa que os usou na campanha presidencial americana mostra que nenhuma democracia pode viver sem o trabalho da imprensa e de jornalistas que saibam separar o trigo do joio, que distingam entre os factos apurados  e a propaganda. Sem esse trabalho ninguém consegue distinguir, na selva das redes sociais, a verdade da mentira. Outra questão relevante é a perda de privacidade dos cidadãos. Há empresas que já sabem mais da nossa vida do que nós mesmos. Quando usamos uma aplicação estamos a pagar, mesmo que pensemos que seja grátis. 

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