Avelino de Jesus
Avelino de Jesus 06 de janeiro de 2019 às 18:00

Greves, salários e produtividade

A fraqueza dos movimentos grevistas tradicionais na concretização de aumentos salariais é notória mas não tem sido suficientemente sublinhada. A baixa dos salários em Portugal tem, em grande parte, a ver com esta fraqueza.

Várias greves recentes - algumas ainda em curso ou com novas edições programadas - foram objecto de inusitadas críticas. Estas incidem sobre três pontos: 1) os impactos negativos sobre os utentes, 2) a natureza dos organizadores que foge do enquadramento político habitual em que surgem entidades promotoras recentemente criadas como o caso dos enfermeiros e 3) o facto de, nalguns casos, as greves terem um suporte financeiro inovador para o meio.

 

Estas greves não encaixam no modelo tradicional pautado pelo enquadramento político bem definido ao qual é subordinado as escassas e bem moderadas exigências salariais.

 

Este tipo de greves, organizadas com novo formato, objectivos salariais precisos e ambiciosos, com suporte financeiro eficaz, devem ser saudadas pelas potencialidades que podem trazer - se se revelarem vitoriosas e se o modelo se multiplicar - para o aumento da produtividade e o crescimento.

 

A fraqueza dos movimentos grevistas tradicionais na concretização de aumentos salariais é notória mas não tem sido suficientemente sublinhada. A baixa dos salários em Portugal tem, em grande parte, a ver com esta fraqueza.

 

A melhoria da produtividade (de que depende o crescimento da economia) está muito dependente da melhoria dos salários, pelo impulso que imprimem à eliminação das empresas e sectores menos produtivos e ao triunfo dos mais eficientes. Nas economias dinâmicas são os salários que empurram a produtividade e não o contrário como - com demasiada frequência - se ouve dizer.

 

Veja-se a fraqueza do movimento grevista em Portugal nas duas últimas décadas. Nestes anos, em média, o número anual de dias de greve por 1.000 empregados foi de 24 o que compara com 42 dias em média nos 28 países da União Europeia. Portugal foi o 12º país com menos intensidade de greves. A título de exemplo notem-se as posições de alguns países relevantes. A Grécia registou 50 dias de greve, a Bélgica 52, a Irlanda 55, a Finlândia 89, a Dinamarca 156 e a Espanha 171.

As críticas que se fazem a estas greves agressivas agora em curso devem ser rejeitadas por três razões(1). Primeiro, porque relevam da rejeição de movimentos espontâneos ou não enquadrados pelas organizações tradicionais que já provaram a sua falência na defesa e promoção da elevação dos salários. Segundo, porque encerram o princípio de só tolerarem as greves controláveis e benignas que não sejam eficazes na promoção efectiva da subida dos salários. Terceiro, porque trava um dos poderosos incentivos ao aumento da produtividade pela mudança que pode provocar na estrutura da produção.

A ideia de que há um bolo que se produz e que depois se distribui (sendo que o salário está rigidamente limitado pelo tamanho do bolo produzido) pulula com vigor esmagador pela economia vulgar; é a alquimia que se apresenta para justificar a moderação das exigências salariais.

Mas, na verdade, o salário e o produto mantêm uma relação dinâmica. O salário determina a formação do produto, tanto na sua dimensão como na estrutura. A pressão salarial tem importantes e virtuosos efeitos sobre a produtividade e o crescimento, criando estímulos imprescindíveis para os empresários efectuarem as escolhas mais virtuosas sobre as tecnologias e os sectores de investimento.

 

(1)A crítica aos recentes movimentos grevistas assume outra faceta curiosa: as greves ocorrem no sector público e pouco no sector privado. Independentemente da explicação de tal ocorrência - que não cabe agora abordar - deve notar-se que o peso esmagador da esfera pública leva a que o que se passa neste sector tem enorme influência sobre a marcha de toda a economia. As eventuais vitórias salariais no sector público repercutem-se sobre todos os sectores e induzem no sector privado - mais até do que no sector público - os efeitos benéficos que aqui evidencio.

 

Economista e professor do ISEG

 

Artigo em conformidade com o antigo Acordo Ortográfico

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