Avelino de Jesus
Avelino de Jesus 12 de abril de 2015 às 21:16

O que é uma taxa de juro negativa?

Nos últimos tempos, os principais bancos centrais entraram numa espiral de redução de taxas de juro e de injecção maciça de moeda. Mas, foi depois do anúncio, pelo BCE, do projecto de injecção de €1,1 triliões de nova moeda, que se verificou uma precipitação de acontecimentos graves e inéditos.

 

Cada dia que passa é marcado por uma notícia mais estonteante que a anterior. Primeiro, os bancos centrais começaram por fixar taxas negativas nas facilidades de depósito. Depois evoluíram para taxas de cedência principais negativas. Formaram-se taxas de juro negativas nos mercados de curto prazo das obrigações soberanas. Evoluiu-se para juros negativos no mercado primário das obrigações soberanas a 10 anos. Por fim, surgem bancos comerciais a concederam empréstimos a taxas negativas (o Realkredit Danmark, o maior banco dinamarquês deu o primeiro crédito com juro negativo). 

 

Alguns bancos dos países nórdicos já cobram juros em depósitos de grandes empresas.

 

A expansão monetária  e a redução dos juros em vez de actuar - como prometem os bancos centrais - tem actuado sobre os mercados de activos. Entre estes, os mercados financeiros são especialmente sensíveis e inventivos, propondo novas formas de especulação.

 

O dinheiro injectado, ao contrário do prometido, não alimentou a economia produtiva o investimento. Engrossou o sector financeiro, empolando o valor dos activos sem relação com os sectores produtivos.

 

Depois da expansão excepcional da moeda, o investimento continua inferior ao período da pré-crise. O investimento ainda não recuperou do nível pré-crise, representando em 2014, face ao nível de 2007, 65% em Portugal, 64% na Irlanda, 66% em Espanha, 33% na Grécia, 98% nos EUA, 91% no Japão.

 

A "recuperação americana", que a expansão do FED provocou, envolve novas e perigosas formas de exuberância financeira, baseadas nos mercados do crédito automóvel e do superfinanciamento dos projectos da energia do gás de xisto, agora em perigo com a queda dos preços nos mercados mundiais.

 

Um juro negativo é um facto que o senso comum não suporta.

 

Os juros negativos que agora observamos são um produto artificial, provocado pelos bancos centrais. São uma antecipação dos investidores à continuação da loucura que constitui a actual e inédita política de expansão monetária dos bancos centrais.

 

Este comportamento dos bancos centrais, escolhendo dar continuidade ao endividamento da economia, dá um impulso decisivo à travagem das reformas de que depende o arranque do investimento produtivo. Fugindo aos efeitos desagradáveis do desendividamento, os bancos centrais preferem ensaiar o desconhecido, numa fuga para a frente.

 

As taxas de juro negativas, resultando de um intervencionismo experimental dos bancos centrais, está a provocar efeitos que os próprios não previram, gerando mecanismos especulativos de efeitos imprevisíveis. Mas um efeito destrutivo já provocou: põe em causa o próprio cálculo económico.

 

O juro exprime a ideia simples de preferência temporal dos indivíduos: o mesmo bem vale mais hoje do que amanhã. Por definição, é uma grandeza positiva. É uma noção, não apenas da economia, como de senso comum.

 

A engenharia social em curso, empreendida em gigantesca escala pelos bancos centrais, ignora e contraria este princípio elementar. Poderá provocar - se não for travada a tempo - grandes destruições, provavelmente, maiores do que as já verificadas no seguimento da crise financeira de 2008.

 

Economista e professor do ISEG

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