Avelino de Jesus
Avelino de Jesus 20 de abril de 2014 às 18:00

Por onde irá o BCE?

O que pensávamos que víamos (sectores inteiros a afundar-se por produzirem caro) era pura ilusão. O problema está antes em vender barato. Os sectores mais agressivos que investem, inovam, reduzem vertiginosamente os preços e conquistam mais consumo e novos consumidores estão à beira de ser suprimidos.

 

Nas últimas semanas apertou-se o cerco e a bajulação ao Banco Central Europeu. Este está a ser pressionado de múltiplos e contraditórios lados para  se transformar num dócil servidor dos mais improdutivos e impenitentes sorvedores de recursos. 

 

Será que o modelo económico-financeiro do endividamento e do crédito excessivos ainda tem algum espaço de progressão?

 

Para a líder do FMI, Christine Lagarde, o grande problema é "… o emergente risco do que chamo "low-flation", particularmente na zona euro. Um período potencialmente prolongado de baixa inflação pode diminuir  procura e produto - e suprimir crescimento e empregos".

 

Ficamos agora a saber que estávamos todos a ver mal: o que pensávamos que víamos (sectores inteiros a afundar-se por produzirem caro) era pura ilusão. O problema está antes em vender barato. Os sectores mais agressivos que investem, inovam, reduzem vertiginosamente os preços e conquistam mais consumo e novos consumidores estão à beira de ser suprimidos.

 

Agora a sério: o crescimento provém da produtividade, do bom investimento, com capital adequado, da inovação e da produção resultante com preços atractivos para os actuais e potenciais consumidores. Como pode uma economia, em que estes  factores pesam o suficiente para arrastar os preços para baixo, estar sujeita a suprimir crescimento e emprego?

 

A procura provém do rendimento que resulta da produção.  Os preços baixos estimulam a procura e trazem mais consumo e mais consumidores.

 

Não se conhece evidência empírica que faça suspeitar da inversão deste processo.

 

Mas sabe-se o que se pretende com tão retorcido raciocínio: a retoma da expansão artificial da procura por via da aceleração da expansão da massa monetária e do crédito.

 

Na zona euro o crescimento do produto, em 2014 e 2015, deverá ser entre 1% e 1,5%. A consolidação orçamental está, em geral, a produzir bons resultados. A quota de mercado destes países nas exportações mundiais melhorou 2,4%, tendo passado de 33,1%, em 2012, para 33,7%  em 2013.

 

Ora - pensarão os burocratas do FMI e muitos insuspeitos companheiros de pensamento - se isto está a ser possível com um crescimento da massa monetária entre 6 e 12%, porque não aumentar a dose?

 

A generalidade dos bancos centrais multiplicou, desde 2008, o rácio activo / PIB, nalguns casos, até 5 vezes. Este rácio no caso da zona euro e do Japão é particularmente elevado com valores próximos de 35%.

 

Nos últimos 15 anos, a zona euro não teve um único ano de variação negativa dos preços no consumidor. Em média a taxa de inflação foi de 2,1 %, portanto, acima do objectivo de 2%. Em 15 anos, 11 tiveram taxa acima dos 2% e só 4 abaixo.

 

Um novo espantalho já foi erguido em substituição de outro derrubado. O espantalho do excesso de poupança deu lugar ao horror da "low-flation".

 

 

Economista e professor do ISEG                              

pub

Marketing Automation certified by E-GOI