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A nossa raiva silenciosa

Manifesta-se, nos portugueses, uma estranha sensação de inutilidade, decorrente da impotência que nos impede de modificar as coisas. O voto não chega.

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Atinge-se a ideia de que o voto é supérfluo e apenas permite a ascensão de uma casta aparelhada pelas máquinas partidárias. Os deputados subordinam-se às exigências das tácticas e das estratégias partidárias e, no concreto, não nos representam. Hipotecam as consciências em nome de interesses individuais. A obediência é o princípio fundamental para a escalada. A submissão faz parte das regras. O sistema está viciado e a mediocridade e o oportunismo políticos envenenaram o exercício de cidadania, que se ausentou creio que irremediavelmente.

Que nos ensina esta gente? Que contributo dá ao desenvolvimento e harmonia democráticos? Que espírito de missão acalenta? O mal-estar da sociedade passa-lhes ao lado e eles nem curam de saber as causas da degradação. Como é possível haver intelectuais apoiantes, à Esquerda e à Direita, desta miséria moral e deste nojo político? É possível, é! E vejam as prebendas, os lugares, as funções, as sinecuras que o poder lhes atribuiu.

PS e PSD, PSD e PS alternam e não constituem alternativa: são semelhantes. O «rotativismo» entre o Partido Progressista e o Partido Regenerador que, no século XIX, foi o espelho da política portuguesa, tem, hoje a representação deformada naquelas duas agremiações. Mas nenhuma delas tem José Luciano de Castro e muito menos Fontes Pereira de Melo. Para o mal e para o bem eles possuíam uma visão de Estado e um projecto transformador.

O PS, cujas ambiguidades vêm de longe, que vogou numa patética deriva durante o intermezzo António Guterres, e de cuja «refundação» José Sócrates é o principal artífice - o PS não é carne, nem peixe, nem arenque vermelho. A inquietação alastra no interior do partido. O caso Manuel Alegre foi o sintoma mais propagandeado, e o seu apelo «Um pouco mais de esquerda» quedou-se nisso mesmo: num apelo, entre outros, um pouco em surdina, formulados por alguns socialistas animosos.

Mais de cinquenta militantes do PS reuniram-se num jantar, no Porto, criticando as decisões do primeiro-ministro, «assentes em critérios liberais». Manuel dos Santos, eurodeputado e tudo, insurgiu-se contra o «posicionamento ideológico do partido». E afirmou: «Às vezes, tenho a sensação de que, ao explicar mal as medidas que toma, o Governo se apresenta como uma comissão liquidatária, em vez de ser um instrumento de desenvolvimento económico e social».

As promessas incumpridas pelos sucessivos governos não exigem análises de compreensão: apenas admitem a repulsa mais contundente. A estranha retórica daqueles que, no PS, criticam e protestam as decisões governamentais, soa a falso. Até agora, e em consecutivas vagas, submeteram-se aos jogos malabares, foram coniventes com a descaracterização do partido, ajeitaram as vidinhas e transaccionaram as nossas esperanças sem pudor e sem castigo.

Vítor Constâncio, António Guterres, José Sócrates que «socialismo» interpretam, simbolizam ou defendem? Cada um deles expôs a visão pessoal de uma ideologia caracterizada por ser de «esquerda» e ser «moderna». Onde está a «modernidade» de um partido que pouco fez para modificar e melhorar as nossas vidas? E que tem feito o PS para criticar «à esquerda», a globalização do mercado, que apenas tem favorecido as duzentas multinacionais que dominam o planeta?

Não esqueçamos de que Ferro Rodrigues foi miseravelmente armadilhado, pelo simples facto de ter sobressaltado muitos dos interesses organizados. Traído, não o esqueçamos, por aqueles dos seus «camaradas» que se incomodavam com os «deslizes» «esquerdista» do PS. Nenhuma voz se elevou, então, em sua defesa.

As críticas do eurodeputado Manuel dos Santos vêm atrasadas, e em nada alteram a linha neoliberal do Executivo Sócrates. Tudo foi minuciosamente preparado. E a nossa raiva silenciosa não é suficiente para atenuar o nosso desespero sem tréguas. Sócrates alisa o caminho para o que vier a seguir, «naturalmente» o PSD. Porém, a manutenção deste rançoso estado de coisas não pode durar.

Apesar de tudo, recupero o título de um excelente artigo de Laurent Joffrin, publicado em «Le Nouvel Observateur» da última semana: «Socialistes, encore un effort!» De nada serve, mas sempre alivia a consciência.

MORTE DE UM AMIGO

Mário Ventura morreu na madrugada da última sexta-feira, 16, com 70 anos, e desesperado, embora não incompatibilizado, com a sua época. Era um escritor importante e um jornalista de causas e de combates. Centenas de textos por ele assinados estão tumularmente dispersos em numerosos jornais e revistas, e neles se afirma a marca distinta de um intelectual cuja identidade se iluminou com as batalhas do tempo que lhe coube viver. Os registos depreciativos da miuçalha vieram associados às sólidas convicções do meu amigo. Ou porque era «neo-realista», ou porque testemunhava o estado social das coisas. Um «escritor político», afirmavam, como se todos os livros de todos os autores não fossem «políticos» ou não reflectissem mal-entendidos «políticos». Anulavam-no, omitiam-no, fingiam desconhecê-lo. Estas suposições hermenêuticas afligiam Mário Ventura, que ocultava as mágoas com a ironia de quem já se havia resignado à falta de compreensão e à ausência de generosidade daqueles, afinal, beneficiários dos seus antigos combates. Uma senhora, conhecida pelo tamanho da sua presunção, aliás equivalente à dimensão da sua mediocridade cosmopolita, escreveu, um dia, no «Expresso», onde foi caprichosa redactora, um artigo abjecto, intitulado «As Desventuras do Ventura». O texto não constituía uma divergência estética nem assinalava uma relação didáctica entre a referência e a incidência. Era um ataque pessoal e sórdido. Como sórdido e pessoal foi o comentário sobre Miguel Torga, assinado, anos depois, pela tal senhora. Mário Ventura, na ocasião, argumentou que a senhora «vivia, desde os 20 anos, uma prolongada crise da meia-idade, e que não perdoava ao mundo ser mais feia do que um telefone». Nas memórias, que redigia, ele consagrou um capítulo à dama. Mário Ventura vai juntar-se à lista dos que rejeitaram a facilidade e ergueram uma obra na qual, por vezes, o virtuosismo da parábola fundamenta a exposição ética e estética das particulares interpretações da realidade. O País perdeu um grande escritor e um grande jornalista. Eu perdi o meu amigo de juventude, o meu companheiro de vida, o meu camarada de letras e de combates.

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