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Baptista Bastos - Cronista b.bastos@netcabo.pt 17 de Março de 2006 às 13:59

A República do medo

O caso português é significativo. Não gosto nada de escrever isto, mas a «Esquerda» de Sócrates converteu-se numa esquerdinha que, real e rigorosamente, não se opõe aos desígnios programáticos da Direita autoritária.

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Uma das causas do aumento da criminalidade, em todo o Mundo, é a extensão, cada vez maior, da globalização. Gente tão diversa, ideológica e culturalmente, como Alain Touraine, Jacques Atali ou Jeremy Blaukfinger, aponta as origens, define os cálculos e alerta para os riscos. A cultura do individualismo, do lucro pelo lucro, acelerou, consideravelmente, este processo de desumanização em massa. A resposta poderá ser morosa, mas surgirá, como modo inevitável de obstar a esta violência quotidiana.

As desigualdades aumentam, as tensões sociais registam-se por toda a parte, e as soluções radicais emergem, contra uma ofensiva horrorosa que está a causar muitos maiores malefícios do que benefícios. Este autoritarismo económico, que tem pulverizado as mais moderadas tentativas dissuasoras, conduz, por outro lado, à unificação de movimentos e de tendências políticas, destinada a reproduzir a implicação social que ela mesma representa.

De certa forma, esta expedita reunião de vontades tem semelhanças com as velhas correntes antifascistas, que, antes e no imediato pós-guerra, constituíram um impulso de ordem moral, convergente com o objectivo de combater o totalitarismo da Direita mais beligerante. Essa impressionante força moral reuniu homens e mulheres de divergentes procedências partidárias e doutrinárias, empenhados, tão-somente, em bater-se pela liberdade e pela democracia.

As circunstâncias históricas diferem, mas a verdade é que a democracia europeia está cada vez mais fragilizada, do que resulta a importância de estarmos, todos nós, empenhados e preparados para reflectir sobre o que nos está a acontecer. Há dias, num Fórum da TSF, um ouvinte afirmou que vivemos «numa República do Medo».

De facto, o medo instalou-se no dia-a-dia das pessoas. Poderosas forças económicas e financeiras determinam as orientações e os programas dos Governos, inculcam a ideia de que, para haver progresso, é necessário existir o desemprego, a miséria e a desintegração social. Quem recalcitre é ameaçado. Quem se lhes oponha está em perigo.

No problema das representações, as tendências são cada vez mais antagónicas. E os representados não vêem as suas urgências e os seus direitos defendidos pelos representantes. A descredibilização da política advém do facto de os políticos estarem na política para organizar as suas vidinhas. 

«Não me parece que toda a gente esteja preocupada com a democracia. Mas, se olharmos hoje o Mundo e, em especial, os novos países industriais e as economias emergentes, vemos que, tal como no final do século XIX, no caso da Alemanha e do Japão, estão combinados o liberalismo económico, o autoritarismo político e o nacionalismo cultural».

A sábia reflexão pertence a Michael Walzer, membro do Institute for Advanced Study, de Princeton, e coordenador da revista «Dissent». Adianta que a desmobilização da Esquerda, dispersa entre pequenas quezílias e dilacerada não só pela intriga, mas também por ausência de debate, é uma desgraça para o desenvolvimento das ideias. Por todo o lado a «desgraça» prolifera: o ideário que alimentava a sociedade civil e lhe fornecia energias tumultuosas, quedou-se em titubeantes declarações de princípio. O caso português é significativo. Não gosto nada de ter de escrever isto, mas a «Esquerda» de Sócrates converteu-se numa esquerdinha que, real e rigorosamente, não se opõe aos desígnios programáticos da Direita autoritária.

A maioria absoluta legaliza decisões; porém, não legitima TODAS as decisões. E numerosas foram tomadas em contravenção às promessas feitas, base essencial da vitória do PS. O desagrado da sociedade portuguesa é notório. O medo aí está. Mas o medo nunca foi bom conselheiro e jamais deu bons resultados.

Como disseram, e bem, ainda não há muito tempo, os drs. Silva Lopes e Medina Carreira, vivemos numa economia que produz um vínculo social novo. Urgente, creio eu, será estimular uma relação de igualdade e de afinidade que permita, seguidamente, um contrato entre associação e participação. Talvez a estrutura associativa, no sentido que lhe dá um Alain Touraine, possa enfrentar a violência da globalização. Talvez.

APOSTILA -  Dilecto: vale a pena assitir à exibição de «Boa Noite e Boa Sorte», de George Clooney, filme que evoca a integridade de um jornalista, Edward Murrow, que fez jornalismo de causa, opondo-se ao cripto-fascismo de Joseph MacCarthy, senador do Wisconsin. Não será uma obra-prima; é um filme que nos faz pensar nas ameaças que pesam sobre as democracias, mesmo aquelas, aparentemente, mais sólidas, como a dos Estados Unidos. O fenómeno macartismo decorre da instauração de uma República do Medo. O medo que, de novo, percorre a grande nação, dominada por uma clique sinistra, cuja face visível é a de W. Bush, mero factotum.

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