Baptista Bastos
Baptista Bastos 19 de agosto de 2016 às 10:26

Criminosos à solta

Vivemos no reino do faz de conta, e o pior é que as pessoas parecem já habituadas à fatalidade de um destino imerecido, mas permanentemente constante.
Quem ganhou com o país a arder? Recordo, agora, a indignada emoção do dr. Jaime Marta Soares, presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses, ao denunciar os que, na sombra e no silêncio, se movem nos negócios da terra queimada, permanecendo impunes, enquanto outros são encarcerados. A moral desta história tenebrosa não consegue terminar. Paga sempre o que tem menos culpa, ou aqueles que, devido a fatalidades mentais, são sempre os apontados. Os crimes cometidos com a terra queimada sobrelevam qualquer outro do mesmo tipo e engenho. E, de hábito, quem vai parar à cadeia são os mandados, raramente os mandantes.

Quando, na televisão, o dr. Marta Soares manifestou grande indignação, com a passividade das autoridades ante crimes desta dimensão e natureza, essa indignação ficou por aí. Todos fomos tocados pela generosidade dele, e por apontar a ineficácia cada vez mais atrevida das autoridades responsáveis. Mas, até hoje, a grandiosidade dos fogos e as características do seu envolvimento continuam a penalizar aqueles que são os menos culpados ou, pelo menos, os culpados medianos. Os "tubarões" do crime, esses, continuam a encher os bolsos e a passar, divertidos, por todas as chamadas e perseguições da polícia.

A ajuda às famílias, prognosticada pelos membros do Governo, não passa de flautices sem qualquer significado. A televisão, na mesma altura, fixou o penoso depoimento de um cidadão, que vive na mesma casa, há vários anos, desde que a sua, anterior, foi devorada pelas chamas. Até hoje, as coisas continuam na mesma, e o homem não sabe o que fazer senão aguentar.

Vivemos no reino do faz de conta, e o pior é que as pessoas parecem já habituadas à fatalidade de um destino imerecido, mas permanentemente constante. A desgraça e a miséria passaram a fazer parte dos destinos dos portugueses sem dinheiro. Estive a escutar, com cautela, as frases do dr. Passos Coelho na estância de turismo do Pontal. O homem está cada vez mais semelhante a um arlequim. Entendo que pouco mais pode dizer do que aquilo que disse, mas a verdade verdadinha é que ele parece cada vez mais um boneco de fala mansa e ordenada, sem uma ideia nova, uma promessa medíocre que fosse. Não sei muito bem onde é que a velha pátria vai parar e como. Sei, isso sei, que não há disputa antagónica, não há uma ideia nova, não há a mínima perspectiva de mudança. Até quando?

As indignadas expressões de desalento e de combate, expressas há menos de quinze dias, pelo dr. Marta Soares, surgem agora como coisas longínquas, desprovidas do significado profundo que o autor lhes desejava atribuir.

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