Baptista Bastos
Baptista Bastos 21 de dezembro de 2012 às 12:34

E, no entanto, é preciso resistir

Chegamos a esta data com o desespero de quem não vê melhoras na situação.

Chegamos a esta data com o desespero de quem não vê melhoras na situação. O ano foi terrível, não só pela imposição de uma ideologia que contradiz os princípios do humano, como pelo rol de mentiras, dissimulações, aldrabices que parece ter-se tornado em trivialidade. Aguentamos viver neste embuste? Aguentam, aguentam!, exclamou, grave e impositivo, o garboso banqueiro Ulrich, conferindo à extraordinária afirmação o cunho de um carácter e a marca de uma certeza em que só ele quer acreditar.


Entretanto, os ministros andam de um lado para o outro, sorrateiros e amedrontados, rodeados de guarda-costas, incapazes de olhar de frente quem os interpela. Há qualquer coisa de sórdido nesta situação, que parece prolongar-se até à náusea. As ondas de indignação e de protesto que varrem, transversalmente, o País não comovem o Governo. Os dias rolam sobre os dias e os meses varam os meses, sendo que, a toda a hora, algo acontece que nos humilha, entristece e desatina, como povo e como nação.


Um garotelho, pertencente a uma coisa que dá pelo nome de Juventude Social-Democrata, quis ter graça e invectivou Mário Soares, servindo-se, inapropriadamente, da frase chula que Juan Carlos de Espanha apostrofou Hugo Chavez. Não é mau que os mais novos sejam novos e irrespeitosos; o pior é quando o não são e assumem os ditos dos mais velhos. Soares tem os defeitos que se lhe conhecem, mas é notável que alguém com quase noventa anos se indigne, proteste e vitupere, com o vigor de quem se não resigna.


O panorama, neste fim de ano, é a moldura de uma queda abismal e trágica. Tivemos o azar de colocar em Belém um indivíduo inculto, possidónio, que só age para um lado e, mesmo assim, canhestramente. O dr. Cavaco é o almirante Américo Thomaz ressurrecto. E só não dá vontade de rir porque o seu comportamento é trágico: arrasta consigo, com as suas dubiedades e indefinições, um país inteiro.

 

Os milhões de portugueses que protestam, nas ruas de todo o país, encontram, na surdez indiferente do poder, um desprezo que se não coaduna com a própria natureza de quem deveria ter princípios democráticos. Mas o Governo anda de bandeira republicana na lapela do casaco, numa manifestação desarvorada de grotesco, e possui, da República (cujo feriado aboliu), um conceito de eguariço.

 

Uma pessoa de bem nada de bom ou de bem pode dizer deste Governo. É pena. Porque é outro, mais outro, a depredar os nossos sonhos e esperanças. O pior é que, quem vier, e quando vier, não saberá como sair da embrulhada. A Esquerda é o que é; e o PS tem um secretário-geral sem brio, sem grandeza e sem energia. E está rodeado de gente que o não aprecia, que o bajula porque ele é o que é: a evolução na continuidade.


Creio que o facto mais relevante ocorrido este ano foi a manifestação "inorgânica" de Setembro. Mas também creio que esse protesto imponente e impressionante não passou de isso mesmo: imponente, impressionante e sem continuidade ou de continuidade intermitente. Estamos a ser roubados em nome da legalidade do voto, e ainda não conseguimos alterar a natureza da situação. Circulam abaixo-assinados, como no antigamente da história, e, lendo-os, verifico que os nomes são os mesmos de há cinquenta anos. Velhos combatentes que se não resignam; porém, velhos. É bonito e exaltante; porém, velhos.


Passos Coelho e os seus estão a vender o País a retalho. As privatizações levantam sérias apreensões a muita gente; e a pressa com que elas estão a realizar-se acentuam as suspeitas da existência de negócios pouco claros. Aliás, tudo o que este Governo faz, diz ou pratica levanta logo um muro de desconfianças. A própria manutenção de Miguel Relvas como ministro faz parte do cardápio de preocupações generalizadas.


Não vejo como poder dizer algumas frases de contentamento, numa situação degradada moralmente e desesperada socialmente, como a nossa. Olhem: leiam livros, leiam os nossos grandes clássicos; frequentem a Bíblia, fonte de ensinamentos e de resistência; descubram a obra poética de Ruy Belo, que faria oitenta anos em Fevereiro; e tenham vergonha por aqueles que a não têm.
Bom Natal! Está tudo nas nossas mãos. Bom ano, se caso o acaso o permitir!

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