Baptista Bastos
Baptista Bastos 20 de dezembro de 2013 às 10:00

Entre tropeções e quedas

Lagarde diz uma coisa, que desdiz e nega o que Draghi afirmou, o qual, por sua vez, diz que não disse. O medonho Barroso é irrelevante nas declarações, proferidas, mas insiste.

 

Lagarde diz uma coisa, que desdiz e nega o que Draghi afirmou, o qual, por sua vez, diz que não disse. O medonho Barroso é irrelevante nas declarações, proferidas, mas insiste. Um medíocre emplumado, a enfeitar o bouquet de flores fanadas que a Europa expõe, com desenvolta sobranceria. Merkel está muito contente com Portugal, cada vez mais desgraçado, e Passos Coelho desdobra-se em depoimentos que não escondem as suas insuficiências e aclaram o que ele entende por "emergência de formas", servindo-se de adjectivos disparatados.


A reflexão comum não encontra motivos de satisfação, que preencham a debilidade de quem diz que pensa e só toleja. Rui Rio, acusado de ser muito "frontal", afirmou que, se nos não precavermos, a ditadura vai tocar no batente da nossa porta. Alguns dos mais qualificados políticos, que ainda os há, advertem do mesmo. Ninguém parece ligar à natureza assustadora desses avisos. Os nossos homens mais responsáveis e categorizados desistiram, seguindo os passos da Herculano, Garrett, e acompanhando, no angustiado desespero, Antero e outros mais. A compensação é grotesca. Depois, assistimos ao perorar daqueles senhoritos do CDS, que nos insultam com a futilidade e a inconsistência atrevidas das suas presenças, e percebemos as razões da decadência política e ética da sociedade portuguesa. Tudo isto dá vontade de morrer - como dizia o solitário de Vale de Lobos.


A ascensão da insignificância (para citar o título de um estimulante livro de Cornelius Castoriadis) corresponde ao aparecimento de uma série de políticos que, em condições normais, nem para atender telefones serviriam. Volto a Castoriadis: "Superficialidade, incoerência, esterilidade de ideias, versatilidade de atitudes são, pois, obviamente, os traços característicos das direcções políticas ocidentais." Compreendemos melhor a índole dos governantes actuais quando procedemos a comparações inevitáveis. Todos estes, de agora, são menores e presumidos. Captaram o entusiasmo efusivo de milhões, porque a era do vazio procriou pequenos monstros ignaros, sufocados por números, estatísticas, percentagens que, na realidade, não reflectem a história, o modo de viver e de conviver, a cultura e as características de cada povo.


A troika que nos analisa, avaliza e impõe normas, está a milhas de saber quem somos. Nem é para isso que existe, bem entendido. O que existe é um simulacro de Governo que nos não defende nem protege, como devia e se lhe impõe, um Governo que, em dois anos, colocou o País de pantanas, e cujas altíssimas responsabilidades terão, um dia, de lhe ser imputadas, com as devidas penalizações.


Não há dúvida de que os quadros políticos, recrutados pelos partidos, estão abaixo das previsibilidades, mas a culpa é dos "aparelhos", que colocam nos lugares de decisão ou de proventos indivíduos desprovidos de qualquer centelha de classe ou de competência. A tese, absurda, de que devemos ter cuidado ao criticar os partidos e o Parlamento, porque liquidamos a democracia, não é válida: quem a está a liquidar são os próprios partidos. Estes, pouco se distinguem. E o exemplo mais evidente é o que ocorre em Portugal: o PS pouco ou nada tem de "socialista", e o PSD nem o cheiro de social-democrata, e ambos se confundem na acção, perdidos o sentido ideológico e a natureza dos propósitos.


A fragilidade as instituições é, cada vez mais, objecto de ataques. O nosso Tribunal Constitucional, que devia merecer respeito e consideração, e tem sido alvo dos mais abjectos ataques, insinuações, pressões e vis comentários, é típico. Até o Durão Barroso, paradigma de parvoíce, se fez eco da estratégia do Governo e procedeu a uma coacção intolerável, a fim de o Orçamento poder ser aprovado. Este cavalheiro inescrupuloso, mordomo nos Açores, para o encontro entre Aznar, W. Bush e Blair, que determinou a bárbara invasão do Iraque, é objecto de grande desprezo, na Europa, onde ninguém, nem os membros da sua família ideológica, o toma a sério. Pois um feixe de gente do mesmo estilo e jaez, lançou a ideia de ele se candidatar a Presidente da República. Valha-nos Deus, Freud e a sapateira prodigiosa!


E assim vamos andando, entre tropeções, quedas e ziguezagues.

 


b.bastos@netcabo.pt

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