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Baptista Bastos - Cronista b.bastos@netcabo.pt 02 de Outubro de 2015 às 09:55

Estamos todos em perigo!

A perturbadora manipulação a que temos sido submetidos faz lembrar, e não muito tenuemente, tempos antigos, de que muitos de nós ainda se lembram.

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A partir de domingo vamos saber os caminhos que a pátria vai tomar. Os presságios não me parecem bons, mas este povo, apesar de amargurado e cercado e sovado ainda dispõe de forças para se reerguer. Duas alternativas se nos propõem: um projecto neoliberal (que está a caminho) com a supressão das responsabilidades do Estado no enquadramento social dos cidadãos ou a manutenção do Estado social, tal como foi construído no imediato pós-guerra. A primeira hipótese supõe a organização do Estado como um imenso condomínio privado, no qual cada «inquilino» trata de si, ignorando e até desprezando o sentido de comunidade, afecto à condição humana. O homem é, por natureza, um ser gregário, e os princípios filosóficos do neoliberalismo defendem e cultivam o individualismo mais exacerbado.

A defesa do Estado social é, pois antagonista daquela tese, tida e havida como um conceito de desumanização. Temos, em Portugal, exemplos pavorosos dessa ideologia: ataque ao Serviço Nacional de Saúde, à Segurança Social, à escola pública, a tudo em que o Estado tenha, minimamente, uma posição clara. O estribilho: "Menos Estado, melhor Estado" tem sido o respaldo deste embuste, apoiado. Aliás, por uma Imprensa acrítica, por uma televisão emasculada e por uma rádio cada vez mais obediente, salvo nos casos em que as excepções confirmam a regra.

Nada destes pormenores tenebrosos tem sido apresentado ao público. Tudo tem sido camuflado com números e estatísticas destinados a confundir a verdade dos factos. O pior é que jornalistas pagos pelo pouco escrúpulo servem estes amos tripudiando sobre os legados honrados de uma Imprensa que, mesmo nos tempos mais ominosos, manteve a dignidade operosa. Com mágoa e desalento indico a SIC como a estação que mais fretes tem feito ao poder. Digo-o com pena: trabalhei lá, nos tempos de Emílio Rangel, e senti a chama que só existe no contentamento e o ímpeto que só nasce da satisfação do trabalho que realizamos. Um equilíbrio que se perdeu e uma nebulosa que pretende confundir-nos com números e estatísticas, em detrimento do calor humano exigido e exigível. Perdeu a combatividade e a frescura determinada pela variedade dos preopinantes; agora, já sabemos, de antemão, o que vão dizer aqueles que aparecem. Uns chatos e uma chatice.

Nenhum órgão de comunicação nos adverte dos perigos que corremos, no caso de a candidatura de direita vencer. E mais acentuam as debilidades evidentes de António Costa, alvo e objecto de um cerco que também se ergue no seu próprio partido. Repare-se que só agora começaram a aparecer, nos comícios e nas "arruadas", alguns dos próceres do PS, e que a Imprensa é extremamente hostil a António Costa. Seria bom que, no final da contenda, houvesse um estudo sociológico desta campanha, a fim de se aferir a integridade dos protagonistas. E, também, das alterações registadas em órgãos de comunicação; os saneamentos, as trocas de lugares e de funções.

A perturbadora manipulação a que temos sido submetidos faz lembrar, e não muito tenuemente, tempos antigos, de que muitos de nós ainda se lembram. Há uma poderosa ofensiva contra a inteligência e contra a revelação dos factos. Os programas das televisões parecem tratados de bestificação. O futebol, esse, está a todas as horas e a todos os instantes: antes, durante, antes e depois. E provoca comiseração ver jornalistas que nos habituámos a admirar e a respeitar predispostos a colaborar na infâmia, a troco de uns tostões miseráveis. Não esclarecem, não criticam, não advertem.

O que está por detrás de tudo isto é algo de tenebroso e de maléfico. É preciso e é urgente sacudir a ignomínia do nosso círculo. Estamos todos em perigo.


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