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Baptista Bastos b.bastos@netcabo.pt 20 de Fevereiro de 2015 às 10:15

José Quitério

Há qualquer coisa de telúrico e de genuíno neste homem de voz forte, corpulento, simultaneamente impositivo, cortês, bem-educado e indócil.

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Há pessoas que, mesmo sem as vermos sempre, estão presentes pela espessura da sua ética, pela qualidade do seu comportamento e pela força que emanam. José Quitério é uma delas. Há qualquer coisa de telúrico e de genuíno neste homem de voz forte, corpulento, simultaneamente impositivo, cortês, bem-educado e indócil. Um amigo comum, o embaixador Francisco Seixas da Costa, move uma acção para que o Quitério seja distinguido com a medalha da Universidade de Coimbra. Claro que assino por baixo. Num país em que os penduricalhos se tornaram registo comum de mediocridades, ou de subserviências políticas, José Quitério faz a diferença, e que diferença!


Há muitos anos, abriu uma crónica semanal no Expresso, que, logo, se tornou numa leitura obrigatória, não apenas pela excepcional qualidade do texto, como pela originalidade do conteúdo. Quitério falava de comidas, de restaurantes e de pratos predilectos, como os relacionava com grandes autores, com a natureza do tempo em que vivíamos, estabelecendo paralelismos comparativos com a história, a sociologia, a moral, a ideologia e a política, falando sempre, acaso de forma subtil, da necessidade de ser homens, quer dizer: "há sempre alguém que resiste / há sempre alguém que diz não."


Muito culto, muito lido, muito sabedor das coisas da vida e das engrenagens que as emperram, Quitério arregimentou um número considerável de amigos e de leitores, e a consequente matilha de invejosos, pormenor que sem sequer o agastava. Como o seu texto era, de facto, o melhor que o semanário publicava, não tardou que uma grande casa editora, Assírio & Alvim, pela argúcia e pelo talento de um editor de excepção, Hermínio Monteiro, lhe publicasse livros. Livros que obtinham êxitos de estima, de consideração e de respeito. José Quitério tornou-se, de facto, um dos grandes cronistas portugueses da Imprensa e da Literatura. O que levou um romancista de extracção francesa, ante o coro de elogios a José Quitério, escrever, com despeito indissimulado, que se tratava de "um jornalista de vinhos e petiscos." Quitério passou à frente, ou nem deu por isso, continuando, no Expresso, a crónica que garantia ao semanário um grande lugar na prosa portuguesa.


Mas o Zé Quitério era, é, um profissional rigoroso, de uma ética a toda a prova, e nunca deixou que simpatias ou antipatias toldassem a severidade do seu modo de ver e de interpretar. Como se podia enganar, as opiniões que publicava só as tomava depois de duas ou três vezes ter visitado, e sempre com amigos do seu círculo de afectos, o restaurante criticado.


A biblioteca do Quitério é um acervo de curiosidades e afeiçoados. Deve possuir, o meu raro amigo, a maior colecção de autores neo-realistas, com datas dos nascimentos e das mortes, acaso o acaso assim seja. A guerra do Vietname seguiu-a, como todos nós, com a paixão e o conhecimento emoldurados em conversas e discussões. O seu herói, nesse tempo, era o general Giap, cuja estratégia fez escorraçar o exército americano, o mais poderoso de sempre.


Encontrei-o em vésperas de ele viajar para o Vietname. Disse-me: "Estou quase cego." Estávamos à entrada do British, onde eu ia ser operado: "E eu estou velho." "Tu vais-te aguentar." E aguentei-me. Ele também. Recordámos, naqueles instantes, o Tafula, o Vítor Silva, o Pignatelli, outros da noite e das aprendizagens. Agora, a mensagem fraterna do Seixas da Costa, fez-me soltar de roldão estas imagens de um amigo que já não há como ele. Telefonou-me fez três meses. "Afinal, quantos anos fazes?"


Até breve, nobre amigo.

 

 

b.bastos@netcabo.pt

 

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