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Baptista Bastos b.bastos@netcabo.pt 16 de Dezembro de 2016 às 09:25

Memória pequena e muito antiga

Tinha três primos, o Armando, surdo-mudo, a Júlia e o Octávio. A minha tia era parteira, possuía um coração generoso, e, com frequência, recusava receber a paga dos seus serviços a pobres e a ciganos.

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(Capítulo do livro de MEMÓRIAS E ESQUECIMENTOS a publicar em breve)

De repente, sei lá porquê!, veio-me à memória o Armador da Ajuda, onde tinha primos afastados. Chamava-os por Tri-ti-tá, e por Nhãe. Olhavam por mim, quando a minha mãe ia fazer trabalhos de costura no Asilo Nuno Álvares, em Belém. O meu pai era compositor-tipógrafo, trabalhava de noite, no jornal A Voz, eu raramente o via. Estivera em África, Angola, durante algum tempo, antes casara e tivera uma filha, mas a família que constituíra desagregara-se e ele fora trabalhar para a Imprensa Nacional, de Luanda. A filha, Armelinda, minha irmã, que me adorava e eu a ela. Mais frequente era eu ficar na casa da minha tia Lucinda, na Boa-Hora. Tinha três primos, o Armando, surdo-mudo, a Júlia e o Octávio. A minha tia era parteira, possuía um coração generoso, e, com frequência, recusava receber a paga dos seus serviços a pobres e a ciganos. O meu tio, José Inácio, casado com a minha tia Lucinda, deixara de trabalhar, era torneiro mecânico, depois de um salsifré político nos estaleiros. Depois, abrira um ferro-velho, o estabelecimento não dera, e ele abandonara tudo menos os seus sonhos antigos.

Quando chegam as festas populares e religiosas, recordo, quase sempre, esta família desconjuntada mas, estranhamente, unida por laços muito fortes. O meu pai fora casado, tivera uma filha, Armelinda, cujo padrinho era um chefe da Polícia Judiciária, Armelim Monteiro. Desconheço as razões fundas destas relações. Sei, talvez por intuição, que o meu pai tinha duas irmãs, Alice e Violante, e um irmão, Manuel, que morrera sem eu ter conhecimento da origem. Soube, muito mais tarde, que os meus avós eram muitíssimo pobres, o meu avô, Júlio César, descarregador de carvão, e que os quatro filhos do casal haviam sido entregues a instituições de caridade, até casarem e ter filhos. Sou um destes.

Não tenho de me magoar ou de me envaidecer. As coisas eram como eram, e eu o rapaz de uma família pobre. O meu pai casara pela primeira vez ainda era muito novo, e não conheço, apenas suspeito, o que ocorreu a seguir. Sou o que sou e não culpo nem critico ninguém. E sempre adorei o meu pai. Ele surpreendia-se quando, depois do trabalho como aprendiz de tipógrafo, eu me inscrevi, por exemplo, na Escola de Artes Decorativas António Arroio, que frequentei depois de sair do trabalho, e onde completei o quarto ano. Nada a lamentar. Só tenho pena de não saber mais dos meus antecedentes e os da minha família paterna. Todos eles foram sempre muito omissos em revelar os pormenores desta história.

Nada de surpreendente nela existe. Faço parte de um tempo que era assim mesmo para aqueles, trabalhadores e pobres, que constituíam o universo comum. Claro que há muitas mais coisas, bonitas e rudes, e eu aprendera a defender-me das ciladas e das armadilhas de que aquela época era fértil. Não me queixo. Tudo era assim mesmo ou muito parecido para aqueles nascidos e criados num tempo que parecia imutável. Ainda bem que as coisas se modificaram, e que as possibilidades para os mais novos se alteraram profundamente. Mas foi preciso lutar muito, e a rudeza daqueles tempos mais tarde ou mais cedo emerge na memória. Nada a criticar, nada a lamentar. Se agora penso nisto, faço-o sem espírito de desforço ou de retaliar. Foi assim, e nada a fazer. Nada a retaliar. O que me aconteceu era comum aos rapazes daquele tempo de indignidades e de pobreza. Nada a lamentar. Apenas penso ser tempo de dizer. E, claro, há muito mais a dizer. Voltarei.


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