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O dia inteiro e limpo

Há trinta e dois anos os melhores de nós acreditaram numa sociedade fraterna, solidária e justa. Os sonhos depressa foram devorados. Na pressa de se atingir a lua deixámos de ter os pés assentes na terra. As coisas ficaram a meio.

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Há trinta e dois anos os melhores de nós acreditaram numa sociedade fraterna, solidária e justa. Os sonhos depressa foram devorados. Na pressa de se atingir a lua deixámos de ter os pés assentes na terra. As coisas ficaram a meio.

Diga-se o que se disser, manifeste-se em alguns o rancor de terem sido ultrapassados pela História, e em outros o facto de não haverem conseguido ajudar a construção de um país equânime e moderno - a verdade é que o País é outro.

Faço muitas reservas a este a outros Governos anteriores, gostaria que as desigualdades não existissem com tanto clamor ou, pelo menos, fossem atenuadas; indigno-me, barafusto, protesto, escrevo contra, vivo sem excesso de recursos, sou o chefe nominal de uma família secularmente empobrecida - mas amo o meu País e daqui não saio, daqui ninguém me tira.

Guardo, dos exaltantes dias de Abril, uma memória afectuosa e comovida. E lamento aqueles que os não viveram, pois perderam o entusiasmo de estar a protagonizar a História. Também lamento os que, trinta e dois anos decorridos, continuam, miseravelmente, a defender um regime que torturou, exilou, homiziou, perseguiu, assassinou e deixou um legado maléfico ainda não totalmente erradicado dos comportamentos mais elementares. Mas não lhes perdoo a desfaçatez com que insultam a liberdade e aqueles que lha ofereceram, permitindo-lhes usar e abusar de um direito que nos negaram com doentia obstinação.

Claro que o regime saído de Abril repetiu erros da I República, o primeiro dos quais o de não saber (ou não poder) exercitar a pedagogia cívica formadora de uma ética da democracia e do desenvolvimento, em que as populações beneficiassem de direitos políticos, económicos e sociais. Perdemos numerosas batalhas, e das ruínas adjacentes pouco ou nada se conseguirá reconstruir. Novos espectros emergiram das sombras, o pior dos quais, porventura o da exclusão - que consigo arrasta todos os males e as maiores desventuras colectivas.

Não votei Cavaco, sempre combati o que ele representa na sociedade portuguesa, mas não posso deixar de referir o discurso proferido na Assembleia da República. Dir-se-á: mas ele só referiu as evidências. Poderia, porém, esquivar-se, omiti-las e refazer o que Maquiavel ensinou: um político nem meia verdade deverá dizer. Uma ilação a extrair das palavras do Chefe de Estado: as reformas representam uma política de civilização, mas as orientações podem ter efeitos perversos. De outro modo: os resultados nefastos inesperados advêm, sempre, de uma causa muito outra da sua finalidade. Cavaco, que teme o protesto de rua e as consequências imediatas ou mediatas, adverte para os perigos dos que parece só verem a realidade diferida.

É estranho perceber esta dicção de um homem que se celebrizou, quando primeiro-ministro, por ilustrar o conceito de Bernard Groethuysen: "Ser realista? Que utopia!" E esquecer que ele próprio é um dos responsáveis do actual estado de coisas. Cavaco depreendeu que a democracia pode ser usada como arma contra a própria democracia. Está interessado na autoridade do "músculo", porventura na mansuetude da população, numa governação vigorosa mas sem atrito.

E talvez seja significativo que, em dois importantes jornais, redactores, declaradamente de Direita, tenham reagido com agressiva surpresa à oração. Não é uma proclamação de Esquerda; todavia, também o não é de não-Esquerda. Essa ambiguidade, muito comum na personagem, proporciona outros modos de representação e oblíquas interpretações políticas. Nota-se, aliás, que na estrutura ideológica e na organização verbal do texto estão, quase de certeza, a perspicácia, o engenho e a mão de Manuel Dias Loureiro, um dos mais relevantes ideólogos e estrategos do PSD e da vitória de Cavaco nas Presidenciais.

O impressionante desfile na Avenida da Liberdade correspondeu a quê? Trinta e dois anos volvidos sobre a Libertação, as relações de afinidade manifestam-se. E as comemorações de Abril ilustraram, perfeitamente, que o pacto substituiu-se ao "partido", afinal sintoma de um vínculo social gerador de outras conexões.

Uma perplexidade que começa a deixar de o ser: na TSF, Maria João Avillez, com pouca subtileza, subestimou o hábito de se recordar a Revolução. Decidiu abandonar-se às cores palustres de Rembrandt a ter de aturar a vivacidade vermelha dos cravos. Em Amesterdão, para aonde, apressuradamente, viajou, reflectiu sobre as quantificações impossíveis, comentando, num bocejo, essa atroz maçada que é o de estar em Lisboa, Portugal, numa data tão desagradável quanto negligenciável.

O enfadonho paleio foi atenuado pela releitura de uma entrevista de Maria José Nogueira Pinto ao "Público"-Rádio Renascença. O que esta mulher diz comporta, sempre, uma pista de busca e amplos motivos de ponderação. E há grandeza, inteligência e gramática. Será que a Maria João não conversa, amiúde, com a irmã Maria José?

No mesmo dia, 26 de Abril, foi revelado que a extrema-direita recruta entre os jovens mais desesperados os seus militantes mais aguerridos. O SIS faz entender que a ambição de criar uma fonte de intranquilidade, de insegurança e de violência deixou de estar latente em alguns sectores da sociedade, os quais aguardam o regresso da sua hora de glória.

APOSTILA - Uma nova e excelente editora, Guerra e Paz, dirigida por Manuel S. Fonseca, ex-director da SIC, surgiu no mercado cultural com edições marcantes. Hoje, falo de uma, "Correspondência 1959-1978 - Sophia de Mello Breyner / Jorge de Sena". Um documento não só indispensável: impressionante. Eis dois casos de magnitude, cuja trajectória intelectual, moral e cívica os torna cada vez mais imperiosos, necessários e paradigmáticos. Fui amigo pessoal de Sena, trocámos cartas, dissemos mal deste e daquele.

Ainda hoje me carteio com Mécia de Sena, grande senhora que resguarda a memória do marido com dignidade e altanaria. De Sophia li-lhe os livros, escrevi sobre, vizinhei-a, conservo grata lembrança da sua passagem por este tempo português. E o livro que tenho entre mãos é revelador de isso tudo, inclusive das afinidades electivas, dos labirintos das amizades, da procura da felicidade e da compreensão. Resgatou-me, a leitura destas páginas, da insidiosa mediocridade de preopinantes, da desvergonha de quem se julga centro do mundo - e nada fez (faz) para modificar o que de feio, de sujo e de mau existiu (existe) na nossa terra, beneficiando, agora, da liberdade para a existência da qual nunca contribuiu.

Voltarei ao assunto.

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