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Baptista Bastos b.bastos@netcabo.pt 22 de Maio de 2015 às 10:39

"O meu pai não fez nada!"

Portugal está moralmente doente, e o sobressalto político e social em que vivemos é propício à agressividade, até porque essa agressividade resulta da pressão sob a qual respiramos - com extrema dificuldade.

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O miúdo entrou em pânico. O pai está a ser espancado, tombou no passeio, escorregou para o pavimento, continua a levar bastonadas. O avô está a ser empurrado por três homens fardados, e o miúdo continua a gritar, transido de medo: "O meu pai não fez nada! O meu pai não fez nada!". O avô tenta defender o filho; o filho tenta defender o pai. "O meu pai não fez nada!". O miúdo tem 9 anos. A extrema violência a que assiste é insuportável. Treme de pânico. Faz chichi pelas pernas abaixo. A cena ocorre em Guimarães. Agora. Mas já vi algumas, semelhantes, há quarenta e tantos anos. O miúdo de Guimarães é o herói deste pai e deste avô que assina a tosca prosa, e que assistiu, revoltado e impotente, como há quarenta e tantos anos, a esta cena de uma bestialidade intolerável. "O meu pai não fez nada!" é a maneira que o miúdo de Guimarães dispõe para proteger o homem espancado, desamparado e no chão.

Os acontecimentos de Guimarães e de Lisboa, todos os acontecimentos, possuem uma causa, e nada é inofensivo ou ingénuo. Santana Lopes tocou no lado sensível do assunto. Disse: "Se tudo aquilo foi organizado, é muito grave; mas se não foi, mais grave é ainda". Isso mesmo. E António Vitorino elucidou: "Há grupos de arruaceiros, vindos do estrangeiro, como se provou noutros casos, que só querem provocar distúrbios". Não quer isto dizer que estejamos inocentes. Portugal está moralmente doente, e o sobressalto político e social em que vivemos é propício à agressividade, até porque essa agressividade resulta da pressão sob a qual respiramos - com extrema dificuldade.

Não somos um país de costumes brandos e hábitos morigerados. Pegamos bois à unha, e matamos por um veio de água. E os factos ocorridos nos últimos meses, violações, assassínios, assaltos, roubos, parecem-me elucidativos pelo lado negro. A situação é explosiva: desemprego em massa, mascarado de triunfo; pensionistas e reformados sofrendo cortes enormes nos parcos dinheiros a que têm todo o direito; população jovem sem emprego e impelida a ir viver para o estrangeiro; população diminuída pelo êxodo; pobres cada vez mais pobres e ricos cada vez mais ricos; a saúde, a educação, a segurança social acentuadamente precárias, tudo isso e muitíssimo mais, e adicione lá o desespero, a desesperança, a vida sem fito e sem horizontes felizes.

Bem gostaria de escrever prosas felizes, mas a situação sombria que nos criaram não é de molde a usar os óculos de Pangloss. O Governo só diz aldrabices e promete ainda mais desgraças. O dr. Cavaco é um pesadelo ignaro. Só podemos, e devemos, contar connosco próprios. Deixar para os outros, ou para os caprichos do destino, a solução dos graves problemas que nos afligem é capitular e abdicar dos nossos deveres. Há mais mundo e mais alternativas do que estas que nos apresentam como inevitáveis.

As cenas de violência registadas em Guimarães e em Lisboa resultam, sobretudo, de uma sociedade mergulhada em crise gravíssima. O saque ao armazém do Vitória de Guimarães, filmado e desenrolado com uma impunidade chocante, está intimamente relacionado com o vazio dos espíritos e o desfavor pelas regras sociais de convivência. Mas é preciso pôr fim a esta miséria moral. É difícil porque o mal está enraizado e os maus exemplos vêm de cima. Mas não é impossível. 

b.bastos@netcabo.pt
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