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Baptista Bastos b.bastos@netcabo.pt 22 de Abril de 2005 às 13:59

O Rottweiler de Deus

É preciso abolir a Inquisição, representada por Ratzinger». A frase pertence ao teólogo suíço Hans Küng, e faz parte de uma entrevista ao diário francês «Libération», publicada em 14 de Abril.

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É um documento perturbador. Küng entrou em conflito com João Paulo II e com Joseph Ratzinger, acusando-os de não cumprimento do espírito do Vaticano II, de que tinham sido partidários empenhados. O suíço, hoje com 77 anos, fora expressamente nomeado, por João XXIII, teólogo oficial do Concílio. Qualquer deles, imbuídos do novo espírito conciliar, criticara a infalibilidade papal, defendera o ecumenismo, a colegialidade, a liberdade de expressão e de opinião no interior da Igreja, combatera o sexismo e o patriarcalismo, pleiteara a causa das mulheres.

A festa durou pouco. Logo-assim foi indicado prefeito emérito da Congregação para a Doutrina da Fé, Joseph Ratzinger reabilitou e pôs em prática as teses mais retrógradas, ilustrando as alegações que aproximavam os imensos poderes do seu cargo como herdeiros longínquos da Congregação da Inquisição. Com o apoio explícito ou pouco dissimulado de Woytila, perseguiu, extinguiu, homiziou, proibiu com implacável severidade. Decisões tomadas em tom melífluo e num registo evasivo.

Ainda Hans Küng: «Ele é responsável pelo sofrimento de numerosas pessoas na Igreja». Não será impunemente que Ratzinger, agora Bento XVI, é conhecido pelo Rottweiler de Deus: colérico para quem o contradiga, enraivecido para os que interpelam o dogma e questionam a falta de democracia na Igreja. E acusado de simpatizante do nazismo.

Bento XVI não é, propriamente, um papa pastoral. Com o pontífice anterior ele foi, na realidade, o «dono» da Igreja, impondo a «doutrina», através das manipulações do «sistema romano», e de uma disciplina sem concessões. Advoga o «pensamento escalonado», segundo o qual a graça de Deus surge como uma superestrutura da natureza humana. Desse modo, contraria e acossa toda e qualquer interpretação «racional» da história da Igreja, da filosofia que lhe está subjacente, e da «interpretação» da leitura dos apóstolos. Intelectualmente, o novo papa é um homem superior; e extremamente astuto e ambicioso. «Perigosíssimo», segundo Küng. A sua involução ideológica obedeceu aos mecanismos mentais que tomam conta dos abjurantes de antigas convicções: tornam-se desapiedados guardiães das novas bandeiras.

O grande teólogo Edward Shillebeeckx defendeu: «Devemos ter a coragem de criticar, porque a Igreja tem sempre necessidade de purificação e de reformas». Cometeu a «heresia» de afirmar que o Jesus dos Evangelhos nada tinha a ver com o proclamado pela Igreja católica. O novo papa não só contraria, como combate, veemente, este princípio, sustentando que nos textos sagrados não há dúvidas, só existem certezas.

A Igreja continua a regredir. Hans Küng na citada entrevista: «O futuro da Igreja parece-me particularmente ambivalente. Não creio que vá morrer, como o pensam certas pessoas, e como o anunciam certos sociólogos. Os últimos acontecimentos [funerais de João Paulo II] demonstram, claramente, que a religião não está morta. Por outro lado não nos devemos enganar. Uma manifestação do poder romano na Praça de São Pedro não significa que a Igreja esteja sã».

Nada indica que o novo papa vá tomar decisões inovadoras, necessárias à inversão da tendência de crise que o mundo católico atravessa. Bento XVI não augura nada de bom, nos enunciados fundamentais da liberdade, da discussão, do confronto de ideias, da reforma antiga e da moderna, da essência do cristianismo, do diálogo com os não-crentes.

A apreensão invadiu muita gente e instituições cristãs. A dr.ª Ana Vicente, do movimento Nós Somos Igreja, e o padre Carreira das Neves não ocultaram as preocupações que a nomeação do novo papa lhes suscita. Eles sabem que, para Bento XVI, a teologia não é «a ciência que trata de Deus, partindo das verdades reveladas», mas sim a forma engenhosa de construir a mítica, mediante uma dogmática eclesiástica de procedência duvidosa.

Ratzinger não muda por ter mudado de nome. As estruturas de poder que ajudou a criar servem aquilo que defende, e promovem a separação entre filosofia e teologia. Quer dizer: entre a verdade natural da razão e a sobrenatural da fé; entre natureza e graça.

Os tempos não são favoráveis àqueles dos cristãos que amam a liberdade de reflectir sobre a «indiscutível» substância doutrinal do Vaticano.

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