Baptista Bastos
Baptista Bastos 18 de julho de 2014 às 09:57

Sente-se que a pátria desperta

A Europa, concebida como espaço de solidariedade, está a desfazer-se, e a hegemonia dos mais fortes abafa a generosa ideia da sua criação.

 

A manifestação de centenas de advogados, junto da Assembleia da República, é mais um significativo sintoma do mal-estar que percorre a sociedade portuguesa. Não há sector da nossa vida que não esteja em ebulição, com consequências dramáticas e, em alguns casos, trágicas. A acção do Governo parece não fazer sentido, e a deriva ideológica de Passos Coelho e dos seus não tem qualquer paralelo com o que se conhece nesta II República. Digo II República como esclarecimento fundamental. O período de 48 anos que durou o consulado de Salazar e Caetano, constitui um interregno brutal no conceito republicano, embora se tente "branquear" a época, e alguns "historiadores" de risco ao lado favoreçam e estimulem a ideia de que o pequeno fascismo santacombadense tenha sido um "republicanismo musculado."


A verdade é que há resquícios de totalitarismo na prática política deste Governo, e os protestos, por vezes tumultuosos, que diariamente se registam, parecem não alterar Passos Coelho e os seus, numa indiferença reveladora da noção do quero, posso, mando e faço, sem prestar contas a ninguém.


Desde o 25 de Abril que não há Governo mais intolerante e intolerável do que este, e os malefícios que tem provocado ao País registam-se como uma sinistra nota: desemprego, suicídios, fuga de milhares e milhares de jovens para o estrangeiro, encerramento de escolas e de tribunais, desertificação acelerada do interior do País, ataque ao mundo do trabalho, menos alunos no secundário e no universitário, venda ao desbarato de empresas públicas, escândalos consecutivos na banca, descrédito nas instituições, ataques absurdos ao Tribunal constitucional, cortes constantes nos salários e nas pensões, ruína moral e desespero sem remissão. Em três anos, este Executivo pôs em prática uma calamidade, com a colaboração do dr. Cavaco, cuja balança política pende para um só lado.


Não é nunca demais insistir na dimensão do que nos tem acontecido. E os paliativos que começam a surgir, segundo os quais a troika exagerou, o Governo subalternizou-se às exigências alemãs, a comunicação social não tem cumprido o dever de esclarecer e cauterizar o erro, a brutalidade das exigências de Bruxelas, tudo isso e o mais que se não sabe ou esconde indicam que a desgraça que se abateu em nós é mal de difícil remédio.


A Europa, concebida como espaço de solidariedade, está a desfazer-se, e a hegemonia dos mais fortes abafa a generosa ideia da sua criação. A última "cimeira" redundou num malogro porque quem manda não se entendeu sobre a escolha de dirigentes. Não há equilíbrio de forças porque a força está de um só lado, e a farsa da ida de governantes a Berlim ou a Bruxelas, como se para resolver problemas, não passa de isso mesmo: uma farsa, por vezes com aspectos caricatos, outras com espessuras trágicas. Evidentemente que isto não pode continuar, com o risco de soçobrarmos. Mas a verdadeira questão é que as decisões de Bruxelas não passam do esconderijo onde se oculta a gravíssima crise que o capitalismo atravessa.


A banca é a demonstração de que algo está a acontecer, e, no nebuloso caso do BES, em que comentadores estipendiados e outros comprometidos, procuram baralhar as cartas dando a entender que tudo se resolve. Mas a procissão ainda vai no adro, e começam a emergir os nomes de culpados. Entretanto, o dr. Salgado vai receber, anualmente, cerca de um milhão de euros, pagos pelo BES, avisam cronistas ofegantes, pelos serviços prestados à causa.


Quando os advogados, um dos pilares do sistema, se juntam aos protestos dos milhares e milhares de contestatários, numa frente moral que inquieta e assusta, e quando o dr. Cavaco, recolhido em Belém, apaga a palavra e só murmura banalidades desprovidas de sentido, sente-se que a pátria está a despertar para qualquer coisa de imprevisível mas importante.


A verdade é que as coisas, tal como estão, e um grupo de embusteiros continua a dissimular a verdade, num desfile para o abismo, regressa o pensamento de que "há sempre alguém que resiste / há sempre alguém que diz não."


Não tarda.

 

 

b.bastos@netcabo.pt

 

 

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