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Baptista Bastos b.bastos@netcabo.pt 28 de Março de 2013 às 00:01

Um homem maior do que o seu tempo

Há dias, no "Diário de Notícias", evoquei Óscar Lopes, contando um de vários episódios que vivi com o grande português. Faltam-nos, por vezes, as palavras para lembrar muitos daqueles que conferiram à pátria a fisionomia da liberdade, quando a pátria estava sequestrada pelas forças da repressão e do reaccionarismo. E Óscar Lopes foi, certamente, um dos maiores entre os maiores daqueles que enfrentaram os medos para desafiar o terror.

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Eu tinha 28 anos quando o conheci pessoalmente. Acabara de publicar "O Secreto Adeus", na Portugália Editora, por instância de Carlos de Oliveira, apoio de Cruz Santos, e patrocínio de Augusto da Costa Dias, aquele e este tão esquecidos e tão significativos no contexto geral da cultura portuguesa. O livro foi mal acolhido pela classe jornalística mais antiga, porque se via retratada nas suas cobardias e cedências. Porém, o êxito inesperado de vendas permitiu que, com o apoio da então Sociedade Portuguesa de Escritores e da editora, eu fosse ao Porto, ao Clube dos Fenianos, falar do romancinho.

Óscar Lopes, em casa de quem pernoitei, esperava-me na Campanhã. E esse encontro marcou-me para sempre. Um homem de meia estatura, tímido, discreto e afável, que pôs imediatamente à-vontade o moço longilíneo, embaraçado e um pouco triste que, na época, eu era. Devo dizer que estava desempregado, fora despedido de "O Século" por envolvimento na Revolta da Sé, e as coisas não me corriam bem. Fomos a um café e ele conversou-me com minudências, falando de tudo um pouco, com voz pausada e sábia.

O Clube dos Fenianos, nobre instituição que recordo com emoção e orgulho, estava cheio de gente. Se eu estava embaraçado, mais atrapalhado fiquei. Logo Óscar Lopes veio em meu auxílio, discreteando sobre a natureza do meu livro, com palavras simpáticas, e alusões às partes que sublinhara a lápis. Na sala, uns indivíduos tomavam notas, com zelo e persistência, sobretudo daquilo de que Óscar Lopes dizia. Quando chegou a minha vez de conversar, não resisti e, um pouco imponderado e muito tolamente ferrabrás, dirigi-me-lhes: "Se quiserem, falo mais alto e mais devagar, para não perderem pitada." A sala rebentou com aplausos. Os mais velhos, que assistiram à sessão, devem recordar a cena. Óscar Lopes não disse nada, mas entendia-se que recriminara o meu acto, pois pusera em causa o próprio Clube dos Fenianos.

Os anos vararam os anos. Enviava-lhe os meus livros, e ele os dele, com generosas e amigas dedicatórias. Sabia-o rodeado de afecto e de admiração; escrevia-lhe, e ele respondia-me, sempre com afecto e extrema delicadeza. O meu amigo Vasco Graça Moura dedicou-lhe um belíssimo poema, "Um Senhor de Matosinhos", revelador da dimensão do poeta e da grandeza do homenageado:

"andava eu no liceu: no salão nobre/ dos paços do concelho, em matosinhos/, um professor, o óscar lopes, vinha/ mostrar à noite que a literatura/importa a toda a dignidade humana/ iam autores ouvi-lo, jornalistas/ estudantes, gente que ali morava/ outra que do porto em carro eléctrico (…) vinha sempre (…)"

É um poema longo muito belo e muito comovente, a cuja leitura regresso, a fim de relembrar o objecto da lira, como o extraordinário autor que é Vasco Graça Moura. Mas "Um Senhor de Matosinhos" é, também, a imagem devolvida de uma época, de um grande homem e de uma geração; e lá aparecem Egito Gonçalves, João Guedes, outros que formaram a resistência cultural e política ao fascismo.

A bondade e a generosidade de Óscar Lopes eram lendárias. Um dia, por iniciativa própria, ofereceu-se para escrever um prefácio (na verdade um ensaio) a outro livro meu "Viagem de um Pai e de um Filho pelas Ruas da Amargura", no qual o génio do ensaísta se expunha sem maiorizar a nossa relação de amizade.

A modéstia deste ser superior chegava a causar escândalo. Há anos e anos, um avantajado grupo de escritores, jornalistas e actores deslocou-se a Santiago de Compostela, numas jornadas culturais, pretexto para melhor nos conhecermos. As salas do Departamento Fonsecas, na Universidade, estavam sempre repletas de um público entusiástico. Óscar Lopes, com uma aplicação de aluno diligente, assistia a todas as sessões, tomando notas com cuidadosa atenção. Numa dessas sessões, os galegos homenagearam o seu poeta icónico, Manuel Maria, cuja voz era, já de si, um extraordinário instrumento vocal. A sala não parou de o aplaudir. E Óscar Lopes, modestíssimo e discretíssimo, tomando notas sobre notas. Foi quando decidi intervir. E gritei: "Está aqui, como um estudante singelo, um dos maiores intelectuais europeus, Óscar Lopes, ali, àquele canto, e eu com os meus camaradas desejo homenagear o seu génio, a sua simplicidade e a humildade com que nos ensina a viver. Viva o português Óscar Lopes!" A sala estremeceu com a trovoada de aplausos. No seu canto, atrapalhadíssimo, não sabendo onde se meter, Óscar Lopes era a imagem de uma elevação e de uma dimensão sem parar.

Temos nós a exacta medida do que lhe devemos? A pátria mereceu-o? A pátria que o encarcerou e o impediu de ser professor universitário? A pátria, que ainda o não celebrou devidamente? A pátria.

b.bastos@netcabo.pt

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