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Bernardo Rodo 02 de Julho de 2020 às 20:00

Comportamentos de consumo

As diferentes reações dos consumidores, das empresas e dos mercados perante a instabilidade da situação resulta em comportamentos diversos, abrangentes e inclusivos, mas todos sugerem recear um mesmo inimigo, que neste caso é o tempo.

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Este período tem sido abundante em opiniões divergentes. Não apenas em relação às medidas de combate à pandemia, na saúde pública e na economia, mas também em relação aos comportamentos individuais, nas mesmas frentes: saúde, trabalho e consumo. É a consequência da incerteza, que por sua vez implica mais possibilidades, soluções diferentes para um mesmo problema. Todos os dias nos chegam afirmações, e o seu contrário, que se assemelham mais a perguntas do que a respostas.

 

Não é possível saber se o trabalho remoto vai ser transversal a todas as organizações, se o comércio eletrónico se vai situar nos valores atuais, se o "home delivery" vai eliminar idas aos restaurantes, se as autocaravanas vão substituir os hotéis ou se a venda de automóveis vai aumentar como forma de evitar os transportes públicos. Para cada uma destas observações existe um argumento válido em contrário. A ineficiência do trabalho remoto em alguns setores, a redução do poder de compra resultante do aumento do desemprego, a nostalgia dos "velhos" hábitos que pode retardar a transformação dos negócios.

 

Como afirmou Brian Chesky, CEO da Airbnb, - com uma presença relevante num setor particularmente afetado -, a transformação do turismo vai ser incremental e não de substituição da oferta atual. Ou seja, o consumidor pós-covid vai querer introduzir na sua experiência de viagem o conhecimento adquirido durante este período, em que restrições e limitações obrigaram à criação de soluções de proximidade, deslocações seguras, destinos com menos densidade populacional, e que no futuro serão um complemento do "city break".

 

O mesmo princípio pode ser aplicado aos exemplos anteriores. Para cada cenário extremado existe uma alternativa que concilia a experiência passada e a aprendizagem resultante deste período, ainda que algumas evidências permitam antecipar novos comportamentos de consumo. Na Ásia está a aumentar a venda de scooters, que pode ser um indicador para a venda de automóveis. Está a verificar-se um aumento da procura de casas nas periferias das grandes cidades, que pode ser um indicador de estabilidade de trabalho remoto. A Europa foi o continente que verificou o maior número de downloads de apps de viagens, que pode ser um indicador da disponibilidade para viajar.

 

Os comportamentos de consumo manifestam tendências associadas a estímulos, que podem ser extensivos ou restritivos, de curto e médio prazo, mas não constituem um movimento uniforme, concêntrico e exclusivo. Estes comportamentos são influenciados pelos decisores políticos, com avanços e recuos consoante os erros que possam cometer, e pelas empresas, que servem como acelerador da recuperação económica através da sua capacidade de inovação e adaptação. Em momentos de grande instabilidade, compete às empresas desenvolver os seus mercados nas circunstâncias em que o consumo é possível.

 

Há quem afirme que o facto de existirem opiniões divergentes pode contribuir para um crescimento económico sustentado e evitar "bolhas", isto é, crescimento não suportado pelo valor intrínseco das empresas, defendido da volatilidade dos mercados financeiros. Esta opinião surge na explicação da recuperação das bolsas após a queda abrupta de março. Apesar de ser um indicador de liquidez, é sabido que existe uma discrepância entre os mercados financeiros e a economia, que o financiamento dos bancos centrais tem influência na confiança dos investidores, que os sinais de recuperação da economia, como foi a ligeira diminuição da taxa de desemprego nos Estados Unidos, têm um efeito exponenciado pelos investidores não profissionais que não querem perder oportunidades. Uma vez mais, são as diferentes expectativas dos investidores que condicionam as flutuações nos mercados de capitais.

 

Outro aspeto importante para estimular novos comportamentos neste equilíbrio de expectativas é perceber como vão os consumidores reagir ao medo de contágio para evitar que se prolongue o abrandamento no consumo. E também como vão as empresas responder à diminuição da procura num mercado global, condicionado por decisões políticas protecionistas. Por exemplo. O mercado imobiliário em algumas regiões do país estava a verificar uma inflação acentuada de preços. Não é por isso expectável que os imóveis transacionados "em alta" cheguem ao mercado no curto prazo com uma diminuição de preço que implique um prejuízo significativo para o vendedor, que aposta na atratividade e "poder de fogo" político de Portugal, para proteger o seu investimento.

 

O facto de existirem várias soluções para estes desafios é a evidência de que a sociedade e a economia estão ativamente a explorar alternativas. As diferentes reações dos consumidores, das empresas e dos mercados perante a instabilidade da situação resulta em comportamentos diversos, abrangentes e inclusivos, mas todos sugerem recear um mesmo inimigo, que neste caso é o tempo.

 

Diretor-geral da OMD

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