João Borges de Assunção
João Borges de Assunção 24 de outubro de 2019 às 19:55

Liderança e sucesso

Alternativamente usamos como medida de sucesso a performance financeira da empresa durante todo o seu mandato ou no período mais recente. Há, porém, muitas situações em que é mais prudente adotar critérios mais abrangentes de sucesso.

Sucesso. Sucesso na vida. Sucesso nos negócios. Sucesso na política. Sucesso é notoriamente difícil de definir em muitas atividades humanas.

 

Quando o ambiente competitivo é estruturado como no desporto, é relativamente consensual definir sucesso. Dizer que Cristiano Ronaldo é bem-sucedido não carece de grande explicação.

 

As grandes figuras da cultura também se revelam bem-sucedidas com o benefício da perspetiva histórica. Picasso, Mozart ou Fernando Pessoa são exemplos de sucesso consensual nas suas esferas respetivas e parte do património cultural mundial.

 

Classificar Picasso como um líder é redutor. Foi muito mais do que isso. E é quase irrelevante para o valorizar saber se ele tinha a ambição de reconhecimento universal. O seu papel de liderança advém da admiração e reconhecimento a posteriori e do seu efetivo contributo para a transformação dos valores estéticos.

 

Na avaliação dos líderes empresariais aceitamos muitas vezes os seus próprios objetivos como bitola da avaliação do seu desempenho. Ou seja, aceitamos implicitamente que o sucesso é medido nos termos definidos pelo próprio.

 

Alternativamente usamos como medida de sucesso a performance financeira da empresa durante todo o seu mandato ou no período mais recente. Há, porém, muitas situações em que é mais prudente adotar critérios mais abrangentes de sucesso.

 

Mas as grandes figuras da história e da cultura e os juízos de valor sobre a sua qualidade são feitos com o benefício de uma suficiente distância temporal. Para se ter uma visão mais completa e para nos libertarmos das proximidades afetivas que frequentemente toldam o nosso juízo.

 

Assim, se quisermos ser rigorosos com os líderes empresariais, e políticos também claro está, temos de aceitar com humildade que o juízo feito no presente é sujeito a demasiados enviesamentos para ser consensual e fiável. Precisamos de saber mais sobre as consequências futuras do comportamento dos líderes para tirar conclusões robustas.

 

O tema da liderança é tão importante em gestão que é provavelmente a área em que mais obras são publicadas. Desde as muito conceptuais às muito práticas. Das que lidam com os problemas de líderes em organizações muito pequenas e simples às que tratam de organizações grandes ou complexas. Algumas são redutoras por confundirem o atingimento de um resultado concreto com a ideia de uma liderança bem-sucedida.

 

Todas estas obras e investigação melhoram a nossa compreensão da liderança em contexto empresarial. Mas são muitas vezes redutoras na forma como, explícita ou implicitamente, avaliam sucesso.

 

É em parte devido a esta dificuldade de análise que os fundamentos da liderança têm mudado pouco ao longo do tempo. E que "As Meditações" do Imperador Marco Aurélio escritas como notas pessoais perto do ano 180 a.C. dão lições de liderança intemporais.

 

É por isso muito difícil para as empresas decidir se devem pedir ajuda com o treino dos seus quadros com formação nas últimas ferramentas e teorias de liderança. Ou se, pelo contrário, devem solicitar ajuda em transmitir as dimensões intemporais da liderança que podem ser melhoradas nalguns dos seus colaboradores.

 

Como decidir se um líder empresarial tem sucesso? Ter paciência. Esperar para ver todas as consequências das suas ações mais significativas. E interpretar a qualidade do seu legado. Todos os outros juízos intercalares carecem de mais informação e estão sujeitos a forte revisão. A história portuguesa recente está cheia de exemplos nos negócios e na política que cada um poderá escolher a seu gosto.

 

 Professor da Universidade Católica Portuguesa

 

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